quarta-feira, janeiro 23, 2008

Serendipidade

Ando pelas ruas a catar idéias que sobrevoam os jardins dos passantes quais borboletas em busca do néctar que as nutra e perpetue. Empunho minha rede ao acaso e colho as que me escolhem, por um capricho que nunca lograrei explicar. E assim vou descobrindo a beleza por trás da realidade em volta, o conjunto de máscaras que adornam a verdade essencial da Natureza.
Ultimamente são muitas as que caem no filó tramado pela minha circuitaria neuronal, por livre e espontânea vontade. Habituado a elas, começo a voejar, timidamente, mas guardo em mim o sonho astuto de ser muito mais que um simples aprendiz. Então me preparo para o dia em que voaremos juntos, elas e eu. Totalmente entregues ao vórtice de um milhão delas, invadiremos “os apartamentos, cinemas e bares, esgotos e rios e lagos e mares, num rodopio de arrepiar”.
Mas, por enquanto, descoberta serendípica que sou (diriam os descrentes), engendro o que serei, de dentro do meu casulo.
Sairei logo mais.

PS: O acaso é um apelido de Deus.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Por Onde Andei?




PS: Importante no meu conjunto atual de reflexões. Não há razão nenhuma para deixar certas coisas para depois.

Espelhos

No fundo dos meus olhos há duas colunas de água refletidas, as mesmas que fito no céu, diante de mim, acima. Estão por desfazer-se, em breve, derretidas num pranto suave e arrebatador. Uma alegrará o solo da minha vila, a outra, o solo do meu coração. É preciso aliviar o céu, deixando-o livre à passagem dos pássaros e dos pensamentos que migram de um canto a outro, sem que saibamos de onde vêm ou para onde vão.
Então, pretendo sentar-me à varanda da minha casa e ver o espetáculo pluvial, com suas lágrimas encharcando a terra e repletando campos pedregosos em cujos quais as cicatrizes de secas emocionais abrem-se como gargantas túrgidas a espreitar os incautos passantes e esquizóides. Quero também inalar o perfume suave do alívio e ver passar as moças “as bilhas à cabeça” e pés descalços, cantarolando a alegria como se os anjos mais canoros do Céu se lhes houvessem instalado na garganta, quais hóspedes sempre bem-vindos e aguardados.
Depois, quererei abrir a camisa e expor meu coração ao vento forte e às últimas gotas que o firmamento precipite sobre mim. Braços abertos e olhos rumo ao alto, ficarei no centro de tudo. Minha imagem se entranhará na retina do Universo que, do alto e além de mim, refletirá tudo aquilo que em verdade sou.

O mesmo Universo que o meu olhar reflete agora.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Basta A Cada Dia O Seu Mal

“A morte de todo homem diminui-me, porque faço parte da Humanidade.” (Albert Schweitzer )



Daniel fez sua prova da OAB ontem, em Ilhéus. Certamente sonhava passar. Talvez tenha passado. Certamente nutria sonhos que dependiam desse rito de passagem à nova realidade profissional. Eu não o conheci. Não o conheço. Só sei que, ontem mesmo, à noite, quando seus colegas voltavam para suas casas, aqui em Vitória da Conquista, toparam no caminho com um incêndio, o incêndio que matou Daniel e sua esposa. Acidente de mais um carro que se converteu em pira de sacrifício cuja tocha não consegue sensibilizar ninguém capaz de deter essa guerra civil que é o trânsito brasileiro.
Achei a história de uma indescritível tristeza. Não pelo desaparecimento trágico. A Morte, essa camareira soturna e enigmática, apenas nos avisa ser chegada a hora de retirar o figurino, ir para o camarim e esperar a próxima cena dessa imensa peça que é a existência, como faria todo profissional consciente e responsável. Lamento, isto sim, pelo que talvez se calou. E pelo que se cala sempre, em mim, em você, em todos nós.
No carro estavam Daniel e sua esposa, unidos no último momento. O que conversaram? O que disseram um ao outro, um pouco antes? Sorriram? Choraram? Não interessa. Nunca vai nos interessar, mas só a eles. Mas, sinceramente, espero que tenham se olhado no último instante e encontrado, um no outro, a certeza perpétua de um Amor que valeu a pena viver até os estertores dessa vida e firmar prosseguimento, além dela. Espero que nunca tenham calado suas inquietações mútuas, que nunca tenham omitido nada um do outro, que se tenham entregado um ao outro, nos atritos e nos diálogos, nos abraços ou nas discussões, com todo o fervor de suas almas, ora sob o olhar vigilante, e na palma da mão serena, do Criador. E que Ele, Causa de tudo que existe, e que não ouso questionar, os guarde em sua Paz.

Na verdade, não espero nada. Apenas sinto.
Faço parte da Humanidade.
PS: Que tenham valido a Daniel e sua esposa todos esses anos de suor, esforço e dedicação à causa pessoal de todo ser humano de viver, amar e aperfeiçoar-se.

terça-feira, janeiro 15, 2008

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Mais Reflexões

A autonomia é uma característica importante. Não depender de ninguém para ser feliz. Não confiar nos outros. Não desconfiar dos outros. Não nos confiar, incondicionalmente, aos outros. Viver, simplesmente. Os tratos e contratos humanos têm sido escritos em letras voláteis, que qualquer brisa desafiadora consegue apagar. E não podemos ficar à mercê disso. Portanto, o negócio é estabelecer contratos, os fundamentais, consigo mesmo. E com mais ninguém.
Livrar-se do que não presta; eliminar todos os miasmas de situações mal-resolvidas; relegar as pessoas ao seu espaço privado, se assim a elas melhor aprouver; eleger novas metas; cumprir metas antigas; não lastimar as ruínas, de toda e qualquer coisa, que vão surgindo pelo caminho; agradecer o aprendizado de cada situação ocorrente; ser autêntico em pensamentos, atos, palavras, de modo a não trair os sentimentos e a razão; atolar-se até o pescoço na solução dos problemas incômodos.


A busca da plenitude envolve mesmo algum serviço sujo. Mas o que resta depois de toda a exaustão da longa caminhada empreendida vale cada gota de suor derramado.

E, neste 2008, estou mesmo MUITO INTERESSADO em praticar tudo isso.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Reflexões

Começo 2008 reflexivo. Ocupado com decisões importantes. Decisões que terão forte impacto sobre minha vida. Convém silenciar, pensar e realizar corretamente. Não haverá outra oportunidade para evitar o atraso do que preciso aprender.


Felicidade é fruto da consciência desperta!

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Aforismos

"Nunca refreie o que pensa, nem por um segundo. Quanto ao manifestá-lo, nisso seja sempre cauteloso. Mas nunca a ponto de recalcar o conteúdo psíquico. Mais cedo ou mais tarde, ele vai eclodir, com uma violência compatível com a que foi usada para soterrá-lo. Portanto, manifeste sua raiva ou a escoe de maneira saudável, aplicando-se por ser veraz, sincero. A hipocrisia, mesmo gerada por uma ação bem intencionada, cobra um preço alto demais."

"Não se force a ser piedoso, isso não funciona. Dê tratamento às suas intranqüilidades, aos seus pruridos íntimos, sejam eles quais forem. Por mais que tente tratar bem àqueles que praticaram atos que você deplora, sem descobrir-lhes as razões íntimas, jamais conseguirá conter o impulso raivoso contra eles."

"Qualquer pessoa, que no próprio discurso deixa a entender, direta ou indiretamente, sua superioridade moral em relação ao seu interlocutor, demonstra ser desprovida de humildade e bom senso."

"Os aforismos são a exaltação do senso comum."

PS: Se Paulo Coelho (blargh!) pode, por que eu não posso? (Isso é um aforismo?)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Da Série: Notícias Relevantes

E não é que o filho de Luciano Huck, Joaquim, num passeio gracioso com o papai, no dia 24 de novembro deste 2007, perdeu o chinelinho? Por sorte, um segurança atento capturou o objeto de volta, restabelecendo a tranqüilidade geral.
Mais importante que o extravio de tão valioso objeto, porém, é a sandália da bajula... (Opa, desculpa!) da humildade calçada pelo jornalista que legou à História tão importante evento. Eu, sinceramente, se não fosse o fato de meus chinelos mal-cheirosos e ilegítimos quebrarem sempre, porque remendados com o arame de uma persistência muitas vezes sem sentido, lhe daria o Pulitzer! Afinal, com essa denúncia desse preocupadíssimo setor da Imprensa, evitamos o ressurgimento dos já extintos pés-descalços e descamisados deste nosso "País do Futuro". É só dobrar o número dos seguranças nas ruas tranqüilas palmilhadas por todos nós.

sábado, dezembro 01, 2007

Diálogos

Minha prima: ... Mas Edgar Mão Branca critica a política brasileira!
Eu: Concordo plenamente. Não poderia ter realizado crítica mais contundente do que ter sido eleito deputado federal!
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Eu: Que é isso, rapaz?
Alexandre (caminhando pela rua, de camisa totalmente aberta): É que estou vindo de uma quebrada terrível!
Eu: De onde?
Alexandre: Da parte alta do Ibirapuera, perto do México
[1]! Atravesso ali perto do Sá Nunes[2], “filmou”?
Eu: Filmei. Que tava fazendo lá, criatura?
Alexandre: Minha namorada foi morar no morro e aí tenho que andar assim, para não ficar com cara de playboy!
Eu: ?
Alexandre: É. Desse jeito, (falou-me, já recomposto, camisa abotoada e tal) fico com ares de playboy do Castelo do Vinho
[3]. É perigoso! – e piscou o olho, com ares de sagacidade.
Eu (desentendido): É... Semiótica nunca foi o meu forte...
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Eu (quando era bancário, no refeitório da agência em que trabalhava, depois de uma greve infrutífera): É... Bem que minha mãe me falou: “Meu filho, vá fazer outra coisa que lhe dê respeitabilidade....”
Serginho (gerente de negócio da agência, gente boa de verdade, tentando completar meu pensamento!): Vai estud...
Eu: “... Vai ser palhaço, malabarista, mágico...”

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[1] Ibirapuera e México são dois bairros da cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, cidade em que resido. O segundo tem fama de ser violentíssimo.
[2] O Colégio José de Sá Nunes também se situa numa área tida como de alta periculosidade.
[3] O Castelo do Vinho, do meu amigo Rosalvo, é um dos bares mais tradicionais e célebres da referida cidade. Um point (blargh!), como dizem. E Edgar Mão Branca, bem... No comments at all.

domingo, novembro 25, 2007

Shadows

Quando o Sol dobrou a esquina dos seus últimos lustros, ele compreendeu, de pronto, o ter que enfrentar a criatura que jazia atrás da porta, havia anos. Sempre cedeu-lhe os espaços das vielas e becos sujos das consciências enlameadas pela culpa. Mas nunca lhe cedeu um momento, ínfimo que fosse, de publicidade verdadeira. Os atos sórdidos eram encobertos pelo verniz mais vagabundo que as mãos toscas de um carpinteiro desleixado poderiam utilizar. Não era um bom hipócrita, não sabia fingir habilmente. Mesmo assim, fingia.
Pela manhã, sombra à espreita, abria o seu baú de máscaras, escolhia a mais adequada à ocasião e tomava o rumo da escada. Não gostava dos elevadores, refertos de "toda aquela gente falsa!" Odiava a sociedade e todo o seu ritual iconólatra, sempre erigindo estátuas a defuntos podres e imorais, convertidos em santos pulcros e castos, graças à eloqüência das pedras e à inércia dos justos. E sorria.
Sorria dissimuladamente para tudo e todos. Era simpático com as crianças, atencioso com os velhos, educado com os negros, afável com as minorias de todos os matizes. Generoso, por fim, e sempre. Mas tinha a marca da impostura na testa. Qualquer sujeito com meia banda de cérebro dentro da cabine cefálica percebia laivos de ódio em seu sorriso fingido. Por isso, não tinha amigos. Nenhum. A não ser a própria sombra que arrastava, vida a fora, mercê da liberdade que ela mesma jamais lhe concederia. Estavam imantados um ao outro, inapelavelmente.
À noite, sentia, pelas vias misteriosas da simbiose, a necessidade de levá-la às fossas mais torpes, a fim de vê-la lambuzar-se nos acepipes putrefatos engendrados pela miséria humana mais perversa. Como gêmeos siameses, deleitavam-se ambos prazerosamente nos banquetes que lhes sobreexcitavam as vísceras psíquicas, num conúbio capaz de causar asco ao mais frio e egoísta coveiro saído da mente perturbada de um Henry Kutner. Depois, ao mirar o resultado de tudo, o mundo lhe caía às costas, soterrando-o sob toneladas de auto-insultos, de ego-lacerações. Juntava as mãos penitentes, genufletia-se como uma cadela beatífica e chorava o choro dos fariseus.
Foi assim, durante evos, até a Dama Sinistra lhe vir ao encalço. Era chegada a hora de encarar o monturo vivo que representava todo o mofo que ele um dia, desditosamente, pensou ser possível cobrir com a cal da repressão. Caíram-lhe ao solo as personas, como escaras que revelam pústulas mal curadas, deixando à mostra a maior e mais inaceitável delas: seu rosto. Estendeu as mãos à sombra por primeira vez e convidou-a, num gesto mudo, a sentar-se com ele, vis-á-vis, ao centro da sala e do mundo.


Nada mais revelador da alma humana, que a nudez provocada pela Morte.

domingo, novembro 18, 2007

Vidraças

O menino aprendeu com a menina a importância de capitanear a própria vida. “O que é prioridade para mim não deixo nas mãos de ninguém”, ela disse. E ele entendeu. O menino priorizou então limpar vidraças. Não só por elas, mas pelo trabalho de limpá-las. E pela necessidade de permitir a entrada da luz desobstruída em seu escritório. Assim pode saber se é, de fato, tão bom vidracista quanto dizem. Assim pode melhor divisar o layout do seu bureau, com todo o equipamento e arquivos disponíveis – inclusive alguns dos quais ele nem lembra mais e precisa reencontrar - e planejar-lhe a ergonomia.
Encheu-se de disposição e começou a trabalhar. Sua mesa está cheia de projetos e bem iluminada, diga-se. Ele não pretende mais deixar suas vidraças opacas. Decidiu limpá-las, todos os dias. Não só por elas, mas pelo trabalho de limpá-las. E pela necessidade de permitir a entrada da luz desobstruída em seu escritório. “O que é prioridade para mim não deixo nas mãos de ninguém”, ele pensa.

Vidraças fatigadas?...

... Nunca mais!

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Suor do Teu Rosto


Não existe maneira mais fácil de se decretar a morte de um blog do que deixar de atualizá-lo com freqüência. Afinal de contas, essa é a função de um diário: comportar os registros cotidianos do seu dono. Deixá-lo em branco é decretar a sua inutilidade, perda de identidade e morte (na mais completa indigência). No entanto, como o Teorias Umbilicais costuma relatar o dia-a-dia do seu autor de maneira sempre, ou quase sempre, metafórica, a multidão de dois ou três leitores não consegue ficar a par de determinados detalhes pessoais da criatura-criadora, que se refletem, por exemplo, nessa falta de assiduidade. A procrastinação é um deles.
Aqui ou ali, em um post ou noutro, ilustrei a ilustre companheira, direta ou indiretamente, procurando refletir sobre a raiz de tal comportamento. Inclusive, este blog surgiu com o intuito de me permitir dar vazão à minha intimidade, permitindo-me escoar emoções, sentimentos e pensamentos. É uma biblioteca sobre a minha consciência, ainda oclusa, conforme o próprio escrito em seu pórtico revela: "Minhas teorias sobre o mundo circundante visto pela minha janela embaçada". E o porquê da procrastinação há muito faz parte de minhas reflexões. Assim foi, até há alguns meses.
Percebi, finalmente, e graças a uma conversa elucidativa com meu amigo Artur (leiam o Grimorium, constante na minha lista de blogs - é ótimo!), ser mais importante descobrir como consolidei esse comportamento do que qual a razão que engendrou a procrastinação. Além da conversa, esclarecedora sobre o meu jeito esquizóide de ser (pelo menos quanto à procrastinação), algumas ilações acerca do Racionalismo, de Descartes, e do Empirismo britânico, de Jonh Locke, David Hume, Thomas Hobbes e outros, apresentando duas versões distintas sobre como o ser cognoscente aproxima-se do objeto do conhecimento, se pelo pensamento ou pela experiência, mostraram-me a necessidade de agir. Todavia, não só pensando nem só experimentando, mas estabelecendo uma relação dinâmica com as coisas, pondo-me a caminhar e querer provar os sabores e os saberes da vida! Percebi que a compreensão me virá pelo exercício, pelo fazer, pelo agir (arte e práxis, conforme o pensamento aristotélico).
Então, mesmo com as irritações características que meu corpo experimenta quando tenho de realizar qualquer trabalho intelectual - considerando o uso da palavra no nível modesto que me cabe -, vou partir para o trabalho. Minhas pernas ainda se agitarão, meus músculos ficarão tensos, algumas vezes chorarei (como já aconteceu várias vezes), mas não vou me privar do prazer de produzir (para desespero de meus detratores, que não possuo, dada a minha desimportância).
Desse remédio chamado Teorias Umbilicais tomarei doses cada vez maiores. Serão drágeas e mais drágeas de trabalho, alegria, paixão e amor! Amor pelo humilde ofício de escrever. De escrever por gostar.

terça-feira, novembro 06, 2007

Gavetas¹



Toda noite, cerrando os olhos, ela mergulha na intimidade do quarto, à cata de algo perdido numa de suas infinitas gavetas. Lembranças como meias surradas que palmilharam caminhos sinuosos. Teoremas, idéias, lembranças, algum sopro esquivo da juventude deixada para trás, há poucos metros. Está tudo lá.
Tateia no escuro e procura, lenta e obsessivamente, pedaços de si mesma espalhados pelos cantos. Há muitas gavetas, porém. Uma infinidade de cubículos em que se amontoam afetos, vestidos e roupas íntimas que ela só usa ali, no seu quarto. O mesmo em que se despe. Em que se sente só.
Num simples movimento, uma gaveta remete à outra, abrindo miríades de possibilidades, saborosas ou não – mas nem sempre. A desordem e a poeira dos móveis em seus olhos fazem pensar que nada têm em comum umas com as outras. Não parecem ser do mesmo guarda-roupa, do mesmo arquivo, sequer do mesmo quarto. Por vezes, uma gaveta emperra e ela a puxa com toda a força, esmurra-a, chuta-a, até desfalecer, os braços inchados. Encostada num canto do quarto vê a torrente de suor que lhe desce à face, ardendo as fibras mais íntimas.
Mesmo assim, na ardência da dor e da alegria, quase insanamente, a menina ri. E, convertida em alegria, dentro de si mesma, tudo segue como num parque de diversões: crianças, bexigas, palhaços, poemas lidos atrás da roda-gigante – onde há quietude e segurança – e na vertigem da montanha-russa. Dobrando a esquina da memória, ei-la diante do futuro: um homem, seu realejo e seu pássaro da fortuna (ou da desdita). “Eu não acredito nisso”, ela pensa. “Não tem lógica.”
- O que não tem lógica, senhorita?
- Prever o futuro no bico de uma ave idiota.
- Tem toda razão.
- ?
- No bico de um pássaro idiota é mesmo impossível prevê-lo.
- ??
- Mas o velho Lewis Carroll não é uma ave qualquer.
- Eu penso que isso não dará certo.
- Por quê?
- Não há como “arrumar” isso aqui dentro – respondeu, cutucando a cabeça com o indicador direito.
- “Penso, logo existo”, não é?
- É!
- Hum...! (Não afirme isso tão enfaticamente, cochichou. O velho Lewis não gosta muito do “Francês”.)
- ...
- Vamos! Aceite a proposta do velho Lewis! O que tem a perder? Peça!
Ela então pede ao cavalheiro solicitar ao seu pássaro, uma arara vetusta e vistosa, que lhe mostre a sorte do dia. A ave inclina a cabeça para o lado esquerdo, pisca o olho num cumprimento maroto, abre a gaveta mágica, e pinça o bilhete fatal: “Pensar e sentir, viver ou sonhar, tudo é uma questão de enxergar.”

Saindo como de um sonho, recuperada do torpor, olhou em volta e, sem armários, arquivos, gavetas, tudo parecia integrado: lembranças, teoremas, relógios, afetos, equações, vestidos. Repetiu, intimamente: “Pensar e sentir, viver ou sonhar, tudo é uma questão de enxergar.” E dormiu o sono dos anjos.


Obs.¹: Texto dedicado a uma grande amiga, neste seu aniversário.

quarta-feira, junho 27, 2007

Protesto Nada Virtual


É o que eu digo sempre: os blogueiros são uma máfia perigosa... Enveredei agora pelos caminhos dos protestos virtuais. Em solidariedade à blogueira e jornalista Phydia de Athayde, publico aqui a mensagem que deixei na caixa da subprefeita de Pinheiros, por indicação/solicitação do jornalista e blogueiro Juca Kfouri:


"Subprefeita, sou paulista, nascido em São Bernardo do Campo, mas, desde 1982, habito na cidade baiana de Vitória da Conquista. Estou distante, pois, e a senhora pode achar que os problemas que ocorrem em meu estado de origem não me dizem respeito. Porém, habito também o ciberespaço e nele é o contínuo tempo-espaço, ressignificando a consciência, que conta. E, no mundo virtual, minha memória afetiva torna-se hiperestésica. Tenho saudades até do que não conheço. Por isso, o sofrimento da jornalista Phydia de Athayde, que já não pode mais andar de skate na praça Horácio Sabino, em virtude de uma obra pública que enfeou o asfalto por onde ela, tranqüilamente, deslizava, me comove. Peço, portanto, providências. Desculpe a prolixidade do meu texto. Fez a introdução parecer uma faixa de paralelepípedos freáticos e calosos em meio a belo tapete asfáltico. Confesso-o mesmo burocrático. E concordo que a burocracia não considera mesmo o bem-estar alheio.
Desculpe, serei mais cuidadoso da próxima vez."


PS: Reparem a cicatriz que a faixa de paralelepípedos produziu no asfalto, impedindo o tráfego de skates, patins, carrinhos de rolimã (patinetes, aqui na Bahia) e outros bólidos.
Mais detalhes a respeito, no blog:
http://blogdaphydia.blogspot.com/.

domingo, maio 27, 2007

Estesia

Ando valorizando o silêncio e as atitudes, ultimamente. Pouco falar, muito sentir, muito agir. Há muito valor em silenciar diante do espetáculo exuberante da vida, enquanto caminhamos pela estrada da existência. Percebo isso agora. Percebo quanto vale observar as entrelinhas dos discursos, em cujos quais os olhos do interlocutor, holofotes a disseminar opiniões, arrazoamentos e sentimentos os mais diversos, são os delatores dos segredos mais reconditamente guardados no espelho d’alma que não se queria exibir. Percebo o quanto as palavras afoitas pisoteiam o bom senso e os bons modos, estrangulando projetos ainda na prancheta.
Enquanto isso, rio intimamente, e em profundo desprezo, da astúcia ingênua dos que têm respostas para tudo. Os que desarmam bombas nucleares com grampos de cabelo, ditam regras a pessoas cujos dilemas éticos não são os seus, pisoteiam a consciência e a caminhada evolutiva alheia, graças à verborragia fantasiosa que os caracteriza. Paciência.
Caminho e penso, interrompendo os meus passos somente para trocar abraços e beijar o rosto dos meus amigos sinceros, para colher as impressões dos transeuntes que, indo ou vindo, percorrem comigo a mesma estrada, em busca de auto-conhecimento, e me dão dicas importantes sobre as saliências do terreno. Uns desfilam, outros são trôpegos; alguns, altivos, outros tantos, desengonçados; eretos, mais outros, corcundas, uns restantes; de passada firme, pequeno número dos caminhantes, vacilantes, muitos, por não conhecerem o chão em que pisam e o calçado que lhe seria compatível. Assim é. A vida e a caminhada. Emociono-me e sigo, então, dando graças a Deus por tudo isso.
Hoje, numa dessas paradas necessárias, chorei muito, ao ouvir falar de um homem altivo e nobre que, vencendo a si mesmo e abandonando suas rotas e vazias convicções, com muita ousadia, ultrapassou o ramerrão das comodidades falsas, se tornou bom e verdadeiramente distinto. E de cuja imagem pretendo aproximar o auto-retrato que farei de mim, um dia.

Fui acometido de eloqüente estesia que me trouxe até aqui, agradecido. De novo, para caminhar.


Voltam, pois, as Teorias Umbilicais.

terça-feira, março 20, 2007

Algumas Divagações[1]

Seguindo a premissa de divulgarmos aos quatro cantos a nossa felicidade, o que nos orgulha, mostrando-nos triunfadores, é natural escondermos o que nos é motivo de vergonha. Estabelecemos uma espécie de ommertá com uma máfia íntima, composta pelos nossos recalques, nossos medos, nossos vexames, nossa debilidade moral, que escondemos da sociedade, cujo código de ética nos massacra, porque o consideramos válido. Estimamos seus signos, seus ícones, seus valores, seu status quo, enfim, nada obstante o nosso discurso rume numa pretensa direção oposta. Porém, ele, o discurso, nada mais é que uma barata justificação, muitas vezes. Nada mais.
Quero me ater, entretanto, à sensação estranha de descobrir-se como a vergonha de alguém. Perceber-se como uma evidência de crime que deve ser ocultada a todo custo. Um erro vergonhoso cometido às escondidas e que precisa ser posto embaixo do colchão, juntamente com as revistas eróticas, as carantonhas repetidas ao espelho, as mutilações masoquistas, o sestro de comer cabelos.
Muitas pessoas dizem a outras: “Eu te amo”, afirmam um sentimento de proporções universais – só possível numa concepção platônica e pasteurizada da existência -, mas não têm coragem de sustentar publicamente suas afirmativas, pela simples razão de não suportarem as pressões do seu estrato social, que exige que o objeto do seu amor seja sempre alguém que caiba na fôrma de príncipe, ou princesa, encantados, construída com valores muitas vezes eivados de pragmatismo, tão-somente. E não têm essa audácia pela simples submissão à vergonha ou ao sofrimento de ter que se enquadrar para ser amado pelo grupo. Pelo seu acentuado misoneísmo, que não lhe permite romper barreiras conceptuais inibidoras da criatividade, expressão sublime do amor. São pessoas emocionalmente e sentimentalmente acanhadas.
Aquele que escamoteia seu parceiro dos olhares alheios, vê-se perdido na guerra entre seus afetos e/ou pulsões e o seu superego, representado por esse moralismo colossal e hipócrita, e desenvolve os mais fantásticos mecanismos de racionalização que possam caber na sua cabeça e na dos de quem precise de auxílio para construir o seu álibi, no intuito de justificar o ocultamento. Enquanto isso, as prostitutas, as “amantes”, os que esperam inutilmente pela dissolução de uma casamento infeliz, mas conveniente, os que são meros calços para as horas difíceis, são entretidos pelas declarações pseudo-amorosas de seus cortejadores, porque vão ao encontro de suas necessidades afetivas ilusórias, alicerçadas no orgulho, na vaidade, na auto-estima prejudicada, no desamor, na sexualidade reprimida, na insegurança.
Essas tessituras psicológicas frágeis, de ambas as partes, cada uma com seu colorido respectivo, necessitam de fortalecimento pelo auto-amor, pela busca incessante de uma plenitude que ultrapassa a mediocrização imposta por uma sociedade cada vez mais utilitarista.

Amor requer arrojo.

[1] Enquanto medito sobre uma reportagem da Revista “Viver Mente & Cérebro”, de outubro de 2004, a respeito da teoria dos “Arquétipos do Amor”, de John Alan Lee, surpreendo-me com essas constatações que me atingiram como a percepção de quem não acha o degrau imprescindível da escada, a cerca de 20 metros do chão, e despenca.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bravura

Reuniu os cacos de si mesmo no vigor do último abraço. Ela nem percebeu. Nem percebeu que aquele beijo na testa, a seguir, em meio a uma multidão infindável de olhares alheios à existência de ambos, era uma despedida. O coração dele, desde aquela hora fatídica, era uma gaiola para sempre aberta. Deixou-a partir de si, suavemente. Sem o saber, ela estava livre.
Ele nem teve tempo de olhar aqueles olhos negros lacustres que mesmerizaram a luz dos seus, opacos, desde o primeiro – e único - momento incrustado na memória que jamais se apagará. Encontraram-se no meio do salão de danças, assim, acidentalmente. Ele, rumando célere em direção às obrigações, ela, num vagar incerto entre a Lua e uma saudade distante. Súbito, por segundos não colidiram como trens desgovernados em que os passageiros levavam consigo somente a bagagem dos afetos destruídos, os amores esmaecidos como telas antigas e pálidas que nunca chegaram a ser dignamente conhecidas. Ela estacou, entre assustada e inquieta, num gesto natural de quem despenca do espaço para a realidade, abandonando momentaneamente a imagem de sua lembrança recente – que não era ele. Ele percebeu seu modo vacilante. Olhou-a, ternamente. Deu dois passos em sua direção. O tempo parou. Vertiginosamente, tudo se movia. Menos eles, perdidos nas órbitas um do outro, quais dois planetas trágicos.
Ele estendeu-lhe a mão. Ela respondeu, num gesto precário e amedrontado. Aproximou-se mais, sorvendo o olor suave de seu suor frio. Sentiu seus cabelos perto, perto demais. Havia um tom verde discreto em seu olhar, nas pálpebras, como o vestido dela na primeira vez que a viu, compondo um perfil suave e clássico. Seu coração – o dele – egoísta, tremia. Queria desmanchar-se em sangue e revolta. Respeitando-o, porém, ele não deixou. Reprimiu-o, com a delicadeza de um pai, sussurrando: “Espere...!”. O coração agitou-se, entre obediente e irritado. Assim como seus braços e pernas, seus pulmões descompassados, suas bolsas lacrimais sob censura. Aceitaram, resignados, o que ele ia fazer. Era inevitável.
Ele passou o braço direito delicadamente em redor dos seus ombros. Ao aproximar-se dela e de seu rosto rubro, horrorizados com o que estava por vir, as partículas aéreas, as pessoas, as estrelas cadentes e longínquas, os meninos da rua largando seus brinquedos, todos, sem exceção, se aproximaram para ver, lentamente, sentindo cada qual os próprios membros pesados, como no imo de um pesadelo em que, inutimente, tenta-se acudir alguém. Alguns, dando-se conta da loucura iminente, ainda tentaram demovê-lo, aos gritos. À toa tentavam atalhá-lo, impedindo que concretizasse o ato fatal. Em vão. Tudo foi em vão.
Ele lhe falou ao ouvido, quase em infra-som: “Você está bem?”. Ela meneou a cabeça, positivamente, ainda encabulada, os olhos num indisfarçável lamento.
Então, ele reuniu os cacos de si mesmo no vigor do último abraço. Ela nem percebeu. Nem percebeu que aquele beijo na testa, a seguir, em meio a uma multidão de olhares outra vez alheios à existência de ambos, era uma despedida. O coração dele, desde aquela hora fatídica, era uma gaiola para sempre aberta. Deixou-a partir de si, suavemente. Sem o saber, ela estava livre.

Para sempre.

sábado, janeiro 27, 2007

Catarse (ou Elogio da Indiferença)


O menino matou a menina. Com a tranqüilidade de quem masca um chiclete e o cospe fora. Quando viu, já o tinha feito. Não queria que ela ocupasse lugar em sua sala de estar, por isso a mandou para o porão em que coleciona seus mortos. Ela é mais um. E ele está com o coração dilacerado. Mas, que importa? Pior é ter a confiança traída. Por isso, ele não sente remorso. Só raiva. Não suporta traidores. Não consegue conviver com eles. É um verdugo de coração duro e vazio.
Mais tarde, indo em direção ao sótão, socará até cair de cansaço o velho saco de areia em que se exercita depois de cada assassinato. Esmurrá-lo-á com toda a sua força, arrebentando as suas costuras de tanto bater. Esfolará seus dedos até sentir o sangue pintar o plástico do saco e o chão gelado embaixo dos seus pés. Depois, banhado em suor fétido e com o rosto em brasa, jogar-se-á à toa no chão, como um garoto desesperançado das vielas de Bagdá, chorando, em meio a mais uma e corriqueira explosão, como a querer estancar a própria vida, no concerto sem fim de sua desventura. O menino odeia ser ingênuo. E foi, mais uma vez. E isso ele não podia tolerar.
Já o posso ver, em seguida, todo comportado, cabelinhos úmidos do recém tomado banho tépido que relaxou seus músculos cansados, sentadinho na escada, de camisa listrada horizontalmente em azul e branco, meias brancas e sapatinhos pretos brilhantes, engraxados pelo pai zeloso. Nas mãos, um livreto inocente quanto inspirador: “Alice no País das Maravilhas”.


E nunca mais se viu o sorriso do Gato.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Procurando Emprego?

Minha contribuição abalizada para você que, neste alvissareiro 2007, passará pelos processos seletivos empresariais, sempre marcados pela clareza, simplicidade, lógica e bom senso: