terça-feira, setembro 15, 2015

Brumas, Dores e Sorrisos

As rubras cores

E as pálidas luzes de um corredor

Não representam o que és para mim, com o teu sorriso de Sol nascente,

A alegria de tuas mãos inquietas e os teus cabelos

Eternamente cheirosos, no fundo

Mais fundo e doce

Do meu coração...


sexta-feira, agosto 19, 2011

Exercício (ou do desenferrujar aos poucos)¹



Não sei se encontrarei, de novo, o fio da minha sensibilidade. A tênue trama diluída em meus braços eleva-me além dos horizontes que ousei sonhar. Vou mais alto. Detalho cada traço do caminho na tela da memória, guardando para mim o seu cantar inolvidável, aquele que jamais sonhei. Então, cometeremos, você e eu, o assassinato das horas mortas, limitados pelo tempo, que não volta mais.






¹ Produzido intuitivamente, sem detença, sem pausa, desataviadamente, derramando as palavras no papel, ao som de uma música suave. Só para desenferrujar, enquanto procuro a alma oculta que habita na, e comanda, a máquina.







sexta-feira, julho 15, 2011

Uma Breve Visita

Faz tempo que não venho por aqui. E nem sei se esta volta prenuncia algo mais duradouro. Talvez sejam só algumas, estas, linhas. Talvez algo mais. Não quero me preocupar com isso. Não sinto também vontade de contar tudo o que aconteceu no interregno em que estive longe deste lugar, e não porque foram coisas ruins ou tristes ou insignificantes. Houve, sim, coisas ruins, tristes, insignificantes. No entanto, a grandeza dos acontecimentos supera tudo isso. Mas não quero falar. Continuarei sentindo tudo aqui, egoisticamente. Aliás, não. Aqui, no fundo do Eu.

Se alguém vir essas linhas, dê um sinal. Seria bom encontrar alguém, novo ou das antigas, nesta terra distante.

Abraços.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Resto e Descuido

"Isso aqui é um depósito dos restos. Às vezes, vem só resto, às vezes, vem também descuido. Resto e descuido." (Estamira)


Minha memória é um depósito de restos. Emergem do calor da minha fornalha neuronal restos, muitas vezes. Mas, às vezes, vem também descuido. Resto e descuido. Resíduos de pensamentos sempiternamente iguais, que busco alterar, demolindo as idéias prontas e renovando meu repertório de respostas. Importante aprender a crescer.

Vislumbro a montanha de resíduos tóxicos que acumulei em meu aterro íntimo e, no momento, dedico-me a realizar a separação dos materiais. Há muito que renovar. Muito a imaginar. Muito a criar. Por isso, estou tentando um ângulo perceptivo diferente. Não quero acumular mais lixo.

Estou criando tanques próprios para cada corpo e remetê-los-ei à usina que comecei a construir e estará pronta, em breve. Lá, espero que eles recebam o tratamento adequado e, assim, eu possa retirar de sua intimidade elementos realmente novos, porque arranjados ineditamente.

Certa feita, li um dramaturgo soteropolitano escrever que muitos afetos são como restos de LSD na corrente sanguínea. (Mas, reconsideremos o sentido de afeto, antes que alguma mente incauta e açodada possa imaginar que os há apenas de um tipo. Lembremos que as relações são estabelecidas com base nos afetos existentes entre um lado e outro do processo de conhecer. Ser cognoscente e objeto afetam-se, mutuamente. E isso vale para as idéias e os mortais que as recolhem; as pesquisas científicas e os cientistas; as teses e seus autores; os livros, os escritores e leitores; uma máquina de costura e o alfaiate; as cinzas do cachimbo e sua última baforada suspensa no ar, enquanto o fumante passeia o seu olhar pelo fumo no espaço. Tudo isso é afeto. E também tudo o mais.) De repente, esses restos esquecidos, realizando o seu périplo sanguíneo, aportam no SNC e este remete ao corpo e à mente todas as suas impressões correlacionadas às imagens do pretérito, que ora voltam a sacudir as tumbas mal dissimuladas do cemitério da memória. Num balé psicodélico, os mortos voltam.

É nesse anfiteatro que se forma que revejo meus mortos e as roupas que lhes vesti. As coroas florais que lhes dei. Os epitáfios que redigi em sua honra, ou desonra. Muitos textos rasgados, cujo sangue do próprio anonimato repousam nas palmas das minhas mãos indolentes. Muitos perdões que não cheguei a pedir. Muitos títulos que não conquistei porque não quis. Muitos zumbis a rosnar os diversos nomes que revesti, vida afora. Muitos livros que não li. (Como pude criar tudo isso?!?)

Há algumas gravatas que posso arrumar, como a que ajeito no cadáver que tropeça na calçada e me olha, fundamente. Há livros que posso publicar. Os meio-fios da calçada distante de minha infância, em que sentava para observar os transeuntes, eu os posso pintar. O cabelo loiro de minha namoradinha de seis anos a solicitar os meus dedos de mesma idade, que tornam a acariciá-los. Os contos de minha puberdade, natimortos em 1983. A nota vermelha no caderno de Matemática banhada com minhas lágrimas vaidosas e assustadas, na terceira série. A minha imagem bonita no espelho e eternamente feia nas fotos que detesto. Meus alunos que sempre irei amar. Aquele que orienta meus passos.


Às vezes resto. Às vezes descuido. Resto e descuido.

sábado, dezembro 06, 2008

Um Pouco Sobre Mim - Um Pouco Sobre A Morte - 2

Continuando as lições do meu processo educativo de 2008, a Morte freqüentou a nossa casa, mais uma vez. Nessa oportunidade, minha avó foi o tema da aula. Faleceu - ou desencarnou, direi eu, espírita - no 02 de dezembro último. Não tivemos uma vivência de proximidade. Questões familiares. Mas sempre gostei dela. Era (?) tão quietinha...! De poucas, raras, palavras. Não convivíamos, a não ser raramente. Nem agora, no momento de sua morte. Os sentimentos, que nada tem de desespero, susto ou insurreição contra o inevitável, ainda não os compreendo bem. Mas compreenderei, sei disso.
No entanto, é estranho tão perto, consagüineamente, termos sido tão distantes.
Nos veremos para conversar sobre isso, um dia. Talvez breve, talvez longinquamente.

Essencial

É importante ter poucas certezas. Responder pouco, perguntar muito, sempre e mais. É o essencial. Encher a cabeça de interrogações e, sofregamente, buscar solucioná-las, uma a uma. Fundamental, para mim, é questionar.

Essencial, pensar, amar e sentir.

terça-feira, novembro 11, 2008

Sobre Crocodilos e Pessoas

“Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado.” (Winston Churchill)


Eu acrescentaria à frase de Sir Winston Churchill a idéia de alimentar o referido réptil para um dia ter a oportunidade de transformá-lo num belíssimo sapato, só para ter o prazer de pisar nele, ou de convertê-lo numa bolsa, mostrando ao bicho o quanto ele é “vacilão”. Mas aí eu teria que alterar a definição inicial, porque um apaziguador não faria isso. No entanto, um apaziguador não é um sujeito inativo. Ele age. Principalmente quando quer pacificar a consciência. Nesse momento, porém, nem sempre é bem visto pelos demais. Sobretudo por aqueles acostumados com suas posturas anteriores, muitos deles, indivíduos que o atingiram em cheio em seus comezinhos direitos. Atualmente, sei bem o que é isso. Decidi não alimentar mais os meus crocodilos. Uma reptiliana hostilidade era o mínimo que poderia deles esperar. Paciência.
Resolvi por ordem na casa, finalmente. Estou dissipando a cortina de fumaça de comodismo e inatividade com que encobri problemas inadiáveis e, como era de se esperar, comecei a enfrentar dificuldades. As pessoas não gostam de gente decidida, gostam dos “bonzinhos”, dos políticos da boa vizinhança. Dos que calam para não incomodar, dos que possuem ouvidos moucos, dos que nada vêem. Enquanto ficamos no nosso canto, aceitando tudo e permitindo que as ações alheias direcionem a nossa existência, tudo são paz e tranqüilidade e as pessoas não nos agridem publicamente. Preferem zombar de nós às nossas costas, gozando o prazer fugidio dos crimes que a nossa inércia permitiu contra nós perpetrassem, ao mesmo tempo em que admiram, ironicamente, o nosso pacifismo mentiroso. Mas, basta começarmos a organizar as nossas coisas, assumindo atitudes novas e não compartilhando com esses algozes que elegemos velhos erros, não mais aceitando o seu “fogo amigo”, a buscar a satisfação de nossos direitos por eles aviltados no pretérito, que nos convertemos, no imaginário dessas criaturas egoístas, nas mais frias, cruéis, vingativas e grosseiras criaturas. (Como as pessoas gostam de facilidades!)
Decidi enfrentar adversários face a face. Não aceito mais ser direcionado por ninguém e nem me permitir esperar pelos outros para ser feliz. Estou caminhando e pronto. Cada um então que aprenda a lidar com o meu passo decidido e interprete os meus movimentos conforme os seus próprios humores e a sua percepção cinemática. Não tenho que me preocupar com isso. Devo, isso sim, permanecer atento às transformações que necessito fazer, sem perder contato com o Código de Ética ínsito em minha consciência, e que sempiternamente me dirige – e me educou a respeitar o próximo. Não o entendia totalmente. E nem o entendo ainda. Hoje, todavia, sei que respeitar o próximo é educá-lo, muitas vezes com firmeza. Ser bom não é ser conivente com o desrespeito, com a prepotência, a soberba, a falsidade, a ingratidão, a venalidade, o comodismo, o utilitarismo, a pusilanimidade, a manipulação e tantos outros equívocos que somos passíveis de cometer, por negligência, imperícia e imprudência. Mas que são cometidos por muita gente movida pela indolência, essa violenta insensibilidade moral que caracteriza os ensimesmados sistemáticos e vitimistas.


Mesmo assim, de jeito nenhum estou disposto a usar sapatos e bolsas feitos com o couro dos incautos que se imaginam espertos.
Ser bom é, também, ser misericordiosamente austero.

domingo, novembro 02, 2008

Dia D

É madrugada. Mas hoje será o dia em que tomarei uma das decisões mais difíceis de toda a minha vida - que não tem a ver com o post anterior. Será doloroso. No entanto, o problema exige solução grave e não posso mais recuar. Fiz o que pude. Tentei conscientizar uma das pessoas que mais amo na vida sobre a sua postura inadequada, que acabaria por causar uma grave ruptura entre nós. Mas, ela não quis. Desconsiderou tudo que vivemos. Os momentos de dificuldade. Os de companheirismo. As coisas que lhe ensinei sobre valores e posturas auto-preservativas. Os nossos diálogos sempiternos. Preferiu rasgar o protocolo. Roer unilaternalmente a corda que nos imanta. É triste, mas devo respeitar sua decisão. Respeitar e seguir em frente. Resolver de vez a retirada de algumas espículas persistentes que o meu descaso travestido de amor paternal não quis pontualmente arrancar. Vai ser doído. Muito doído. Nunca mais serei o mesmo.
Todavia, o meu amor é eterno.
PS: Ninguém cria um bebê para vê-lo, mais tarde, se matar, gratuitamente. Eu não criei.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Novo Começo

Para seguir em frente, faz-se imprescindível esclarecer pontos obscuros. É a isso que me dedicarei nos próximos dias. Há decisões importantes a tomar e, portanto, serão dias de muitas conversas, de muitos diálogos pontuais. Não haverá como voltar atrás, depois. Espero, sinceramente, que, ao final, tão-somente reste a verdade – e a compreensão mútua, principalmente. Estou pronto para deixar o ego à parte e reduzir o meu amor-próprio. Será a única maneira de aprimorar a minha escuta, concentrando-me, e me dedicar plenamente a quem me merece a melhor atenção.
Confesso sentir aquela expectação típica dos momentos decisivos que encerram – e iniciam – ciclos, e isso me tira um pouco do fôlego; mas tudo isso é muito bom. Então, dedico-me a esses pensamentos, para outrem, triviais, e a notas curtas, registrando, aqui e ali, as marcas do caminho que percorrerei, a fim de não me perder nele.

Estou feliz!

sexta-feira, setembro 26, 2008

Resignação

Ando cansado das minhas fórmulas prontas e rotinas mentais e idéias gastas. Ando repetindo muitos erros, submetendo-me a experiências repetidas que nada me acrescentam. Preciso compreender a necessidade de mudança, preciso apostar todas as minhas fichas nisso. Talvez uma boa maneira de mudar essa conjuntura seja deixar de pensar muito em certas coisas e suas razões. Talvez seja o caso de lançar uma moeda ao ar, observando o seu périplo metafísico, e, sem torcer por um lado ou por outro, apenas aceitar o resultado final.

quarta-feira, agosto 06, 2008

A Calmaria Que Sucede A Tempestade

812. Por não ser possível a igualdade das riquezas, o mesmo se dará com o bem-estar?

“Não, mas o bem-estar é relativo e todos poderiam dele gozar, se se entendessem convenientemente, porque o verdadeiro bem-estar consiste em cada um empregar o seu tempo como lhe apraza e não na execução de trabalhos pelos quais nenhum gosto sente. Como cada um tem aptidões diferentes, nenhum trabalho útil ficaria por fazer. Em tudo existe equilíbrio; o homem é quem o perturba.” (Da lei de igualdade, O Livro dos Espíritos)

Depois de um longo e sofrido percurso, eu SEI o que é isso. Valeu a pena cada segundo de resignação ativa.

quarta-feira, julho 02, 2008

Otimismo em Gotas

“Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado.”
(Raul Seixas)

Algumas coisas são sempre as mesmas, repetindo-se numa incomôda freqüência. São atitudes recorrentes a que nos vemos submetidos, vez por outra. Aprendi uma coisa em relação a isso, seguindo a ronda do meu atual périplo pragmático: não deter o meu passo, perdendo tempo com esses caprichos alheios. Seguir em frente é tudo que quero e preciso. Pelo que tenho visto, na hora “da onça beber água” (Arre! Adágios?!? Você pode fazer melhor que isso, Ricardo Ferreira!), cada um defende o seu, sem olhar para trás. Não tenho visto ninguém parar seus estudos, suas atividades prementes, a resolução de seus problemas, a caça de seus objetivos mais urgentes ou qualquer outra coisa do tipo, a fim de ponderar melhor sobre os escombros que deixou para trás graças a seus modos de tanque de guerra em tempo de plena animosidade. Não sou eu, então, que farei isso. E não se trata de egoísmo.
Há coisas que realmente não vale a pena discutir, coisas que não merecem a nossa ponderação, nosso esforço intelectual. Vou seguir o que planejei, doravante, sempre. Mas com uma cautela no trato de situações novas jamais aplicada anteriormente. Não é saudável lidar com mártires e seu modo puritano, beatífico e vitimista. Por outro lado, não vale a pena ficar exposto aos ácidos humores que os alheios julgadores cospem na nossa cara ao travarem contato com os nossos defeitos morais. Como não estou com a menor vontade de ser julgado pelo júri popular, deixo ao tribunal de minha consciência a tarefa de informar-me sobre os autos do meu íntimo processo de melhoramento. E cumpro, resoluto, a sentença.
Entrei nessa briga “de faca na boca e sangue nos olhos” (De novo?!? Pelamordedeus! Está cada dia pior, Ricardo Ferreira! Será possível que não vai evoluir????)! Estou realmente feliz com as decisões que venho tomando e não permitirei que mais nada me tire da rota. Vou virar uma verdadeira “Máquina de Guerra”, sem remorso e sem coração (Ah, não! Essa foi demais!). Enquanto isso, precato-me contra as ações destemperadas dos julgadores de plantão, ouvindo-os com um mal simulado semblante de interesse sem enfado.

“Ri melhor quem ri por último.” (Hum... Podre!)

segunda-feira, junho 23, 2008

Ouro de Tolo

“Ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco!”
(Raul Seixas)

Ando sem paciência para um monte de coisas. Um tanto irritadiço em relação a trivialidades. Um tanto competitivo. Indisfarçavelmente mal-humorado, em alguns momentos. Andava com um amortecimento da vontade bastante antigo e resolvi me tratar. Precisava recuperar a vontade de conquistar coisas, de estabelecer metas factíveis, de me aprimorar por intermédio do trabalho entendido como "toda atividade útil”. O resultado da terapia é que, junto com o élan vital, vieram muitos impulsos desagradáveis, amortecidos há tempos, à arena de minha consciência. No entanto, dedico-me tão-somente a observar esses impulsos, sem satisfazê-los, enquanto ajo. Uno, para tanto, saber teorético e saber prático, buscando a compreensão de tudo isso.
Há um Observador criterioso dentro de mim, cumprindo diligentemente seu papel. Na administração desses ímpetos, procuro minha linha de equilíbrio. Nada de atitudes desrespeitosas, de modo a agradar o id freudiano. Contudo, também, nada de ações causadoras de comportamento neurótico. Nada de atitudes imoderadas. Investigar-me (agindo) é a palavra de ordem.
Há muita coisa recalcada, que necessitava de tratamento. Embora eu tenha avançado bastante no quesito auto-conhecimento, desenvolvendo um bom nível de inteligência intrapessoal, alguns desses entes, com os quais tenho que lidar no presente momento, estavam em estratos psíquicos muito profundos, escamoteados entre os monturos que trago no cerne de minha inconsciência. A visão é notadamente desagradável. A pessoa que vejo não me agrada; não cultivo os mesmos valores que ela, mas aprendi a não julgá-la. Houvera compreendido, antes deste período de auto-análise, que o amor, a paciência, a compassividade, o respeito para com outrem são virtudes que só se conquista caminhando pelo próprio labirinto íntimo, averiguando cada detalhe, sem medo do Minotauro que iremos encontrar a qualquer momento da jornada. Então, julgo-me com maturidade suficiente para poder, pelas lentes do Observador, ver, sentir, perceber todos esses detritos que ora emergem alagando a via de acesso à Paz que tenciono obter. E a Paz não se conquista pela deposição das armas morais.
No Mahaabharata, o único texto do mundo em que a auto-iluminação de um sujeito se dá num campo de batalha, é esse o dilema de Arjuna diante do exército kaurava, composto por valorosos guerreiros e parentes seus. Ele titubeia, inquirindo sobre como poderá ser feliz matando pessoas de seu próprio sangue, numa metáfora belíssima sobre nossos conflitos íntimos em busca da Paz. Krishna insta-o à luta, argumentando ser indigno de “uma pessoa de mente nobre e de ação” ser assaltada por aquelas impressões numa conjuntura tão inapropriada. A luta de Arjuna, que o texto simboliza, é contra os seus demônios íntimos. Tudo bem escondido em ícones e signos, que só uma boa dose de Semiótica é capaz de descortinar. O dilema de Arjuna é o meu dilema. Mas não quero vacilar mais.
Mesmo tendo que encarar minhas sombras, minhas mazelas pessoais, pintadas nas paredes emboloradas da memória mais recôndita, transcendental, quero achar graça nas coisas pelo que elas são, e não pelo que aparentam ser. Farei isso, nem que tenha que matar a mítica criatura que jaz em mim.

Morrer é transformar-se!

segunda-feira, março 24, 2008

A Seta e o Alvo



Atual, muito atual, em minhas reflexões.

segunda-feira, março 17, 2008

Olhos Azuis

"Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia." (William Shakespeare)


Foi incrível, pensou o menino. Ele caminhava trôpego pela rua, arrastando o cansaço no corpo e na alma como se todas as obrigações graves da face da Terra estivessem sob sua responsabilidade. O suor ardente a escorrer pela testa e a entranhar-se nos olhos avermelhados compunha, com o cenho carregado, uma imagem sofrida. De repente, o milagre. Viu-se, em plena luz do dia, sob um halo azul descido dos céus. Um dente-de-leão, soprado por algum menino-anjo, puro como ele nunca fora, deixou pender da abóbada celeste uma pétala branca luminescente que, len-ta-men-te, flutuou, frente a ele, em arabesque. Ele ficou ali, pela eternidade de alguns segundos infindáveis, olhando para ela, namorando-a. Até entender que aquilo era um recado de Deus. Desses que apenas ressonam na alma do destinário, e em nenhuma mais. Então, ergueu os olhos e viu-a, à meia distância, mas se aproximando. Os olhos dela num alinhamento perfeito com a pétala. Os dois azuis num conjunto harmonioso e perfeito. Ele abismou-se. Perdeu a voz. Ela percebeu.
Em seguida, ela se virou e foi saindo. Estacou antes de completar o segundo passo, porém. Voltou-se para ele, de soslaio, e sorriu-lhe um sorriso charmoso. O menino também sorriu. Ambos ergueram as sobrancelhas, ao mesmo tempo. E ele pensou, finalmente: "Só pode ser ela!". Misteriosamente, notou que ela se fez a mesma pergunta, despertada pelo ato instintivo que julgavam tão particular, mas que era comum aos dois. Descontraíram-se, depois. Ela lhe disse, com uma expressão entre misteriosa e sedutora: "Tudo bem?". "Tudo", foi a resposta, tímida. Ela saiu, então.
Todavia, estacou e voltou-se, do mesmo jeito anterior: "Acho lindo timidez, é charmoso. Tchau." Ele sorriu, cabisbaixo e ainda mais tímido. Mas reagiu, ergueu a cabeça e olhou-a nos olhos, confiante como sempre, apesar dessa terrível marca de nascença: "Acho lindo olhos azuis. Tchau."

Cada qual rumou para o seu canto, imediamente nostálgicos, certos de não ser aquela a primeira vez. Nem a última.




terça-feira, março 11, 2008

Um Pouco Sobre Mim - Um Pouco Sobre A Morte

Não queria - e nem consegui - falar sobre a morte de minha irmã, Cristiane, ocorrida no último 27 de fevereiro, às 06:55 h. Tivemos, lado a lado, uma existência interessante, rica em acontecimentos, em dores pessoais compartilhadas, em conflitos há muito resolvidos. Ela é mais uma pessoa com a qual solucionei, vis à vis, problemas pessoais, e pude ir em frente, sem culpa.
Nos últimos anos éramos bons amigos, embora extremamente diferentes. O ponto convergente era - e é - o temperamento forte. Ela espontaneamente, eu, quando provocado. Não costumo deixar para depois nem atacar pelas costas. Só não sou direto quando percebo que a pessoa não vai suportar. Não cofundo assertividade, veracidade e autenticidade com falta de educação e grosseria. Apiedar-se das fraquezas humanas é nobre. Ao menos nisso quero ter nobreza de caráter. Mas voltemos à Morte e sua freqüentação recente ao meu entorno.
Muita coisa tem morrido em mim, como morre a semente de trigo para gerar a espiga, e essa mesma, a fim de gerar o pão; como morrem as lagartas; como morrem as estações; como morrem as idéias. Morreram pessoas, morreram gestos, morreram palavras, morreram sorrisos, mas também morreram lágrimas, acessos de ira, violência mal disfarçada, desculpas. Morreram "meu silêncio, meu medo da morte". Eu próprio morri.
Penso, e sou, hoje, bem diferente do que fui. As experiências tornaram-me melhor, com uma visão mais apurada das coisas, de alguns fatos humanos. Percebo-me mais apto, mais forte e mais feliz. Mais inteligente, porque mais moralizado.
Pensando assim, a morte não é nada prejudicial. Basta enxergar o essencial, "invisível aos olhos".

Pensando bem, a Morte também morreu.


Mas essa há bem mais tempo.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Etiqueta de Preço

"A sociedade tolera muito menos um buraco na roupa de um homem do que um rombo no seu caráter." (Provérbio inglês)






Não me atrevo a julgar as pessoas, porque sou um saco de lixo repleto de defeitos escabrosos que nem exigem do Diabo qualquer esforço mais oneroso para me condenar no Tribunal da Consciência Divina. Mas não me pejo em analisar posturas gerais que observo por aí. Não coro nem por um segundo ao sentir o impulso de pousar meu olhar ladino sobre as feridas humanas, examinando-as. Só não publico os portadores delas porque, afinal, não quero os meus defeitos expostos junto com uma etiqueta de identificação do proprietário. Então, reconheço o mesmo direito aos outros. Todos nós somos dignos de comiseração.
Tem merecido muito pouco apreço o fato de sermos humanos, de ser o auto-descobrimento o contributo de esforço para o alcance de nossa própria - e plena - felicidade. Quanto vale a dignidade de uma pessoa? Quanto vale um caráter? Qual o preço da auto-estima? Qual a remuneração da carência? Na sociedade do espetáculo, da imagem, da aparência, depende do astro, famoso ou anônimo (sim, os há!). Vamos dos milhões de dólares às quinquilharias e roupas com as quais se adula a vaidade humana, tão robusta em aparência e tão carente de conteúdo.
Vejo muitos triunfadores sociais exibirem, numa alegria que beira à insanidade, posto que ilustrada em sorrisos dissimulados e nervosos, os atributos por intermédio dos quais desejam atrair a atenção, e o poder aquisitivo, dos consumidores. Expressam, nos olhares, embalagens e nos gestos, a funcionalidade do produto, as vantagens estéticas e as compensações em caso de dano ocasionado na origem. Tudo muito aparente, com manuais de instrução e tudo. Mas há mais, muito mais, em oculto.
A etiqueta de preço real, semelhantemente àquelas microscópicas letras que ornam os contratos comerciais, nunca ficam à vista. Não se pode ver em meio aos atrativos do exemplar, quanto suor e quantas lágrimas dos operários da vontade são derramados, enquanto se dedicam a lutar contra o exorcismo, forçado pela consciência em desalinho, dos valores exigidos pelo Código de Ética da própria fábrica que engendra o produto, mas que pesam desfavoravelmente em sua competitividade. Há na base de sua confecção, portanto, um declarado, mas surdino, conflito entre o departamento de marketing e o de qualidade. E o produto sai da linha de produção com sérios e invisíveis defeitos em sua tessitura, que podem causar a sua devolução, ou mesmo a inutilização, em definitivo.
Mas reconheço o impositivo mercadológico impeditivo de uma cobrança mais justa pelo produto final, caso alguns de seus caracteres amortecidos pelo verniz social fossem elencados em seu portfólio. Dignidade, caráter, auto-estima, para quem os têm e preserva, realmente, não tem preço.

Para todas as outras coisas existe Mastercard.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Piece Of My Heart

Esse é o instante de ouvir Janis, com sua voz visceral como que partida do recôndito mais profundo dos infernos. Da garganta de algum gárgula que escoa as águas de uma tempestade íntima. Piece Of My Heart.



quarta-feira, janeiro 23, 2008

Serendipidade

Ando pelas ruas a catar idéias que sobrevoam os jardins dos passantes quais borboletas em busca do néctar que as nutra e perpetue. Empunho minha rede ao acaso e colho as que me escolhem, por um capricho que nunca lograrei explicar. E assim vou descobrindo a beleza por trás da realidade em volta, o conjunto de máscaras que adornam a verdade essencial da Natureza.
Ultimamente são muitas as que caem no filó tramado pela minha circuitaria neuronal, por livre e espontânea vontade. Habituado a elas, começo a voejar, timidamente, mas guardo em mim o sonho astuto de ser muito mais que um simples aprendiz. Então me preparo para o dia em que voaremos juntos, elas e eu. Totalmente entregues ao vórtice de um milhão delas, invadiremos “os apartamentos, cinemas e bares, esgotos e rios e lagos e mares, num rodopio de arrepiar”.
Mas, por enquanto, descoberta serendípica que sou (diriam os descrentes), engendro o que serei, de dentro do meu casulo.
Sairei logo mais.

PS: O acaso é um apelido de Deus.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Por Onde Andei?




PS: Importante no meu conjunto atual de reflexões. Não há razão nenhuma para deixar certas coisas para depois.