domingo, maio 27, 2007

Estesia

Ando valorizando o silêncio e as atitudes, ultimamente. Pouco falar, muito sentir, muito agir. Há muito valor em silenciar diante do espetáculo exuberante da vida, enquanto caminhamos pela estrada da existência. Percebo isso agora. Percebo quanto vale observar as entrelinhas dos discursos, em cujos quais os olhos do interlocutor, holofotes a disseminar opiniões, arrazoamentos e sentimentos os mais diversos, são os delatores dos segredos mais reconditamente guardados no espelho d’alma que não se queria exibir. Percebo o quanto as palavras afoitas pisoteiam o bom senso e os bons modos, estrangulando projetos ainda na prancheta.
Enquanto isso, rio intimamente, e em profundo desprezo, da astúcia ingênua dos que têm respostas para tudo. Os que desarmam bombas nucleares com grampos de cabelo, ditam regras a pessoas cujos dilemas éticos não são os seus, pisoteiam a consciência e a caminhada evolutiva alheia, graças à verborragia fantasiosa que os caracteriza. Paciência.
Caminho e penso, interrompendo os meus passos somente para trocar abraços e beijar o rosto dos meus amigos sinceros, para colher as impressões dos transeuntes que, indo ou vindo, percorrem comigo a mesma estrada, em busca de auto-conhecimento, e me dão dicas importantes sobre as saliências do terreno. Uns desfilam, outros são trôpegos; alguns, altivos, outros tantos, desengonçados; eretos, mais outros, corcundas, uns restantes; de passada firme, pequeno número dos caminhantes, vacilantes, muitos, por não conhecerem o chão em que pisam e o calçado que lhe seria compatível. Assim é. A vida e a caminhada. Emociono-me e sigo, então, dando graças a Deus por tudo isso.
Hoje, numa dessas paradas necessárias, chorei muito, ao ouvir falar de um homem altivo e nobre que, vencendo a si mesmo e abandonando suas rotas e vazias convicções, com muita ousadia, ultrapassou o ramerrão das comodidades falsas, se tornou bom e verdadeiramente distinto. E de cuja imagem pretendo aproximar o auto-retrato que farei de mim, um dia.

Fui acometido de eloqüente estesia que me trouxe até aqui, agradecido. De novo, para caminhar.


Voltam, pois, as Teorias Umbilicais.

terça-feira, março 20, 2007

Algumas Divagações[1]

Seguindo a premissa de divulgarmos aos quatro cantos a nossa felicidade, o que nos orgulha, mostrando-nos triunfadores, é natural escondermos o que nos é motivo de vergonha. Estabelecemos uma espécie de ommertá com uma máfia íntima, composta pelos nossos recalques, nossos medos, nossos vexames, nossa debilidade moral, que escondemos da sociedade, cujo código de ética nos massacra, porque o consideramos válido. Estimamos seus signos, seus ícones, seus valores, seu status quo, enfim, nada obstante o nosso discurso rume numa pretensa direção oposta. Porém, ele, o discurso, nada mais é que uma barata justificação, muitas vezes. Nada mais.
Quero me ater, entretanto, à sensação estranha de descobrir-se como a vergonha de alguém. Perceber-se como uma evidência de crime que deve ser ocultada a todo custo. Um erro vergonhoso cometido às escondidas e que precisa ser posto embaixo do colchão, juntamente com as revistas eróticas, as carantonhas repetidas ao espelho, as mutilações masoquistas, o sestro de comer cabelos.
Muitas pessoas dizem a outras: “Eu te amo”, afirmam um sentimento de proporções universais – só possível numa concepção platônica e pasteurizada da existência -, mas não têm coragem de sustentar publicamente suas afirmativas, pela simples razão de não suportarem as pressões do seu estrato social, que exige que o objeto do seu amor seja sempre alguém que caiba na fôrma de príncipe, ou princesa, encantados, construída com valores muitas vezes eivados de pragmatismo, tão-somente. E não têm essa audácia pela simples submissão à vergonha ou ao sofrimento de ter que se enquadrar para ser amado pelo grupo. Pelo seu acentuado misoneísmo, que não lhe permite romper barreiras conceptuais inibidoras da criatividade, expressão sublime do amor. São pessoas emocionalmente e sentimentalmente acanhadas.
Aquele que escamoteia seu parceiro dos olhares alheios, vê-se perdido na guerra entre seus afetos e/ou pulsões e o seu superego, representado por esse moralismo colossal e hipócrita, e desenvolve os mais fantásticos mecanismos de racionalização que possam caber na sua cabeça e na dos de quem precise de auxílio para construir o seu álibi, no intuito de justificar o ocultamento. Enquanto isso, as prostitutas, as “amantes”, os que esperam inutilmente pela dissolução de uma casamento infeliz, mas conveniente, os que são meros calços para as horas difíceis, são entretidos pelas declarações pseudo-amorosas de seus cortejadores, porque vão ao encontro de suas necessidades afetivas ilusórias, alicerçadas no orgulho, na vaidade, na auto-estima prejudicada, no desamor, na sexualidade reprimida, na insegurança.
Essas tessituras psicológicas frágeis, de ambas as partes, cada uma com seu colorido respectivo, necessitam de fortalecimento pelo auto-amor, pela busca incessante de uma plenitude que ultrapassa a mediocrização imposta por uma sociedade cada vez mais utilitarista.

Amor requer arrojo.

[1] Enquanto medito sobre uma reportagem da Revista “Viver Mente & Cérebro”, de outubro de 2004, a respeito da teoria dos “Arquétipos do Amor”, de John Alan Lee, surpreendo-me com essas constatações que me atingiram como a percepção de quem não acha o degrau imprescindível da escada, a cerca de 20 metros do chão, e despenca.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bravura

Reuniu os cacos de si mesmo no vigor do último abraço. Ela nem percebeu. Nem percebeu que aquele beijo na testa, a seguir, em meio a uma multidão infindável de olhares alheios à existência de ambos, era uma despedida. O coração dele, desde aquela hora fatídica, era uma gaiola para sempre aberta. Deixou-a partir de si, suavemente. Sem o saber, ela estava livre.
Ele nem teve tempo de olhar aqueles olhos negros lacustres que mesmerizaram a luz dos seus, opacos, desde o primeiro – e único - momento incrustado na memória que jamais se apagará. Encontraram-se no meio do salão de danças, assim, acidentalmente. Ele, rumando célere em direção às obrigações, ela, num vagar incerto entre a Lua e uma saudade distante. Súbito, por segundos não colidiram como trens desgovernados em que os passageiros levavam consigo somente a bagagem dos afetos destruídos, os amores esmaecidos como telas antigas e pálidas que nunca chegaram a ser dignamente conhecidas. Ela estacou, entre assustada e inquieta, num gesto natural de quem despenca do espaço para a realidade, abandonando momentaneamente a imagem de sua lembrança recente – que não era ele. Ele percebeu seu modo vacilante. Olhou-a, ternamente. Deu dois passos em sua direção. O tempo parou. Vertiginosamente, tudo se movia. Menos eles, perdidos nas órbitas um do outro, quais dois planetas trágicos.
Ele estendeu-lhe a mão. Ela respondeu, num gesto precário e amedrontado. Aproximou-se mais, sorvendo o olor suave de seu suor frio. Sentiu seus cabelos perto, perto demais. Havia um tom verde discreto em seu olhar, nas pálpebras, como o vestido dela na primeira vez que a viu, compondo um perfil suave e clássico. Seu coração – o dele – egoísta, tremia. Queria desmanchar-se em sangue e revolta. Respeitando-o, porém, ele não deixou. Reprimiu-o, com a delicadeza de um pai, sussurrando: “Espere...!”. O coração agitou-se, entre obediente e irritado. Assim como seus braços e pernas, seus pulmões descompassados, suas bolsas lacrimais sob censura. Aceitaram, resignados, o que ele ia fazer. Era inevitável.
Ele passou o braço direito delicadamente em redor dos seus ombros. Ao aproximar-se dela e de seu rosto rubro, horrorizados com o que estava por vir, as partículas aéreas, as pessoas, as estrelas cadentes e longínquas, os meninos da rua largando seus brinquedos, todos, sem exceção, se aproximaram para ver, lentamente, sentindo cada qual os próprios membros pesados, como no imo de um pesadelo em que, inutimente, tenta-se acudir alguém. Alguns, dando-se conta da loucura iminente, ainda tentaram demovê-lo, aos gritos. À toa tentavam atalhá-lo, impedindo que concretizasse o ato fatal. Em vão. Tudo foi em vão.
Ele lhe falou ao ouvido, quase em infra-som: “Você está bem?”. Ela meneou a cabeça, positivamente, ainda encabulada, os olhos num indisfarçável lamento.
Então, ele reuniu os cacos de si mesmo no vigor do último abraço. Ela nem percebeu. Nem percebeu que aquele beijo na testa, a seguir, em meio a uma multidão de olhares outra vez alheios à existência de ambos, era uma despedida. O coração dele, desde aquela hora fatídica, era uma gaiola para sempre aberta. Deixou-a partir de si, suavemente. Sem o saber, ela estava livre.

Para sempre.

sábado, janeiro 27, 2007

Catarse (ou Elogio da Indiferença)


O menino matou a menina. Com a tranqüilidade de quem masca um chiclete e o cospe fora. Quando viu, já o tinha feito. Não queria que ela ocupasse lugar em sua sala de estar, por isso a mandou para o porão em que coleciona seus mortos. Ela é mais um. E ele está com o coração dilacerado. Mas, que importa? Pior é ter a confiança traída. Por isso, ele não sente remorso. Só raiva. Não suporta traidores. Não consegue conviver com eles. É um verdugo de coração duro e vazio.
Mais tarde, indo em direção ao sótão, socará até cair de cansaço o velho saco de areia em que se exercita depois de cada assassinato. Esmurrá-lo-á com toda a sua força, arrebentando as suas costuras de tanto bater. Esfolará seus dedos até sentir o sangue pintar o plástico do saco e o chão gelado embaixo dos seus pés. Depois, banhado em suor fétido e com o rosto em brasa, jogar-se-á à toa no chão, como um garoto desesperançado das vielas de Bagdá, chorando, em meio a mais uma e corriqueira explosão, como a querer estancar a própria vida, no concerto sem fim de sua desventura. O menino odeia ser ingênuo. E foi, mais uma vez. E isso ele não podia tolerar.
Já o posso ver, em seguida, todo comportado, cabelinhos úmidos do recém tomado banho tépido que relaxou seus músculos cansados, sentadinho na escada, de camisa listrada horizontalmente em azul e branco, meias brancas e sapatinhos pretos brilhantes, engraxados pelo pai zeloso. Nas mãos, um livreto inocente quanto inspirador: “Alice no País das Maravilhas”.


E nunca mais se viu o sorriso do Gato.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Procurando Emprego?

Minha contribuição abalizada para você que, neste alvissareiro 2007, passará pelos processos seletivos empresariais, sempre marcados pela clareza, simplicidade, lógica e bom senso:


Desapego

“Vou deixar, dentro de mim, todas as coisas desvanecerem e perderem o sentido mesquinho que têm. Vou andar mais livre e ser menos disponível a gente específica. Estarei disponível à vida. Serei, quanto puder, onipresente, sem ser visto. Estarei nas lembranças de cada qual, mas nunca mais tão presente quanto hoje. Não fisicamente.
Não decorarei nomes. Nem de lugar, nem de pessoas, nem de nada. Renegarei, com todas as forças de minha alma triste, a prodigiosa memória que arrasto, vida a fora, pois minha memória é apenas solidão. Vomitarei, para bem longe de mim, todas as minhas crenças, aliviando meu estômago de todo esse nojo. Relegarei ao crepúsculo toda minha identidade, que não significa nada.
Descalçarei minhas sandálias, tirarei minha camisa e andarei ao Sol, trôpego, ridículo e anêmico, na esperança de que Deus me encontre. Nunca mais voltarei aqui, amigo. Adeus.”
Foi tudo o que ele me disse. Virou-me as costas e saiu. Até agora acompanho, no espelho que guardo aqui dentro, seu vulto triste, uma mortalha sombria carregando o peso colossal da incompreensão nas costas, contrastando em tudo com a estuante manhã, lá fora, e com a praia dourada, estrado concedido por Ele aos seus pés rachados e chumbados num nada aberrante.
É estranho, foi como profecia. Ele está aqui, mas não está. Nunca mais. Não do mesmo jeito.

terça-feira, janeiro 02, 2007

domingo, dezembro 31, 2006

Retrospectiva II

Eu não entendo o tempo como um abrir e fechar de ciclos. Assim eu entendo os eventos. Tempo, para mim, é consciência. Conforme a consciência percebe, conforme é o tempo. Se penso num acontecimento passado, atualizando-o através da memória, ele se torna presente, real em minhas vivências íntimas. E segundo essas vivências é que transformo o mundo em que estou, é que o concretizo. Criamos o mundo ao percebê-lo – afirmam alguns cientistas e filósofos, baseados nos paradoxos da mecânica quântica. E é por isso que penso os anos, os meses, os dias numa perspectiva de continuidade, embora nem sempre esteja consciente disso. Busco, entretanto, essa compreensão; quero, atualmente, sentir a existência.
Não tenho euforia relacionada à transição dos anos. Para mim, as coisas mudam na medida exata da transformação da consciência – e esta não muda da noite para o dia. É uma transformação contínua que dura uma eternidade (aproveito e afirmo: sou espírita e reencarnacionista, daí...). Contudo, não me custa agradecer às pessoas que visitaram este blog durante o ano de 2006.
Conheci muitos amigos e pessoas interessantes, graças a esta atividade. Pude ofertar-lhes humildemente um pouco de mim e deles obtive riquíssimos comentários, que me auxiliaram a compreender parte de minha intimidade denunciada pelos textos. Foi um exercício interessante, uma das melhores coisas que fiz a meu favor neste 2006, e que pretendo continuar. Diverti-me, emocionei-me, ri, chorei, pensei, existi um pouco mais – e agora, ao lembrar disso tudo, divirto-me, emociono-me, rio, choro, penso, compreendo. Desejo que a minha centena de três ou quatro leitores sinta esse mesmo efeito. Desejo que se compreendam melhor, compreendam melhor os outros e o ambiente em que estão e do qual participam.
Obrigado, cordialmente, a todos. Sejam felizes! E essa felicidade seja a duradoura e perfeita de terem uma consciência sempre desperta.

Beijos!

sábado, dezembro 23, 2006

Para Mim, Em Tudo, Inefável



Ele.




O que mais dizer...?

Retrospectiva I

Eu devo a este 2006 alguns aprendizados importantes. Aprendi:

A dizer NÃO (assim mesmo, em caixa alta), sem medo de ser feliz;
A não acreditar em tudo que ouço ou leio, principalmente sobre mim;
A não me enlamear com as críticas maldosas, nem me pavonear com os elogios baratos;
A perceber uma inominável violência oculta na delicadeza de muita gente;
Que o trato cauteloso com as palavras e sentimentos alheios é privilégio de poucos;
Que cada um defende o seu, mas nem por isso estou disposto a ser egoísta e conformado;
Que procrastinação tem cura – e que eu a estou conseguindo;
Que muita gente me ama, de verdade - e que muita gente tem razões de sobra para me odiar;
Que nem todas as razões são sábias;
Que muita gente me encara como uma mulher barbada de circo, um anão de duas cabeças ou uma esfinge ambulante – e isso, às vezes, me incomoda muito;
Que encaro muitos como personagens saídos de " The Twilight Zone" - e que isso não me dói nem um pouco;
Que entramos e saímos uns da vida dos outros, respeitosamente, às vezes; muitas vezes, como quem pisa de coturno o solo sagrado de um ashram;
Que minha palavra tem peso, mas minhas ações têm bem mais;
Que tudo, no final, vira éter...

... Mas o éter durará para sempre!

terça-feira, dezembro 19, 2006

Assim Caminha a Humanidade

Sempre me é difícil compreender como pude sobreviver até hoje sem algumas informações veiculadas pela Imprensa, demonstrativas da ocupação laboriosa e estafante desses paladinos da informação, que são os repórteres especialistas em colunas sociais e celebridades. O site Terra, por exemplo, apresentou a terrível notícia do esvaziamento do pneu da bicicleta da atriz Alessandra Negrini, durante um passeio no Leblon, no final da tarde de terça-feira, dia 13/12/2006. O assunto também foi comentado no fleumático "Kibeloco".
Essa notícia é de alta relevância, porque recrudesce o debate sobre as ações antidumping contra a Repúlica Popular da China (RPC), tendo como objeto pneumáticos importados daquele País, conforme consta da Circular nº 74, de 31 de outubro de 2006, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, publicada no D.O.U., de 03 de novembro de 2006. Isso desde que o pneumático em questão seja convencional, e não de kevlar ou hiten, porque estes, por apresentarem um desempenho muito superior, devido à tecnologia aplicada na sua confecção, não sofrem o efeito das referidas ações, que têm por função proteger o mercado interno.
Mas e se o pneu furado da bicicleta de Alessandra Negrini for de kevlar ou hiten produzido na RPC? Estamos nos referindo a uma celebridade! E se ela tivesse arranhado aquelas pernas de Engraçadinha que ainda ostenta? E se tivesse alterado sua plástica numa indesejável (e injusta, por Deus!) colisão com o solo asfáltico e estragasse seu sorriso perfeito, ficando à margem da sorridente população brasileira? Tudo por conta de um maldito produto que promete, mas não cumpre! Para mim, já seria motivo para um embargo comercial! Pensemos no que seria de nós se essa notícia não viesse a público! Quem poderia ser a próxima - e incauta - vítima? Giselle Bündchen, Xuxa, Chiquinho Scarpa?
Enquanto isso, perdemos tempo discutindo o aumento do salário dos deputados (Qual é o problema nisso, gente? Os coitados já não agüentam mais tanto arrocho!); o Millenium Project da ONU e os 8.600 estádios do Maracanã que se pode encher com os famintos do mundo (segundo minhas contas, baseadas no mesmo documento); a mortalidade materna na África Subsaariana; a relevância epistemológica do Raciocínio Complexo de Edgar Morin; o conflito: palestinos vs. israelenses, essas “coisinhas miúdas”.
Querem saber? Sou culto e tenho mais o que fazer. Fiquem aí discutindo essa porcaria toda, que vou ali saber na Caras como vai o namoro da Daniella Cicarelli com o Renato Malzoni Filho.

sábado, dezembro 09, 2006

Criptomnésia

Perdi um texto, hoje pela manhã. Ele era promissor, lindo mesmo, mas se foi. Esmaeceu aos poucos, evadindo-se de minha memória, calma e decisivamente. Ficou-me apenas parte do enlevo que senti, ao ler, na tela da minha mente, sua primeira frase – que nem mesmo sei mais. Quem o pariu: a reestruturação cognitiva, organizando conteúdos de ontem? Uma inspiração, um insight? Ou teria sido o sopro fugidio de uma Musa vinda do Olimpo, e que resolveu partir ao perceber que preferi dormir um pouco mais, ao invés de registrar a mensagem que me trouxe? Não sei.
Só sei que, enquanto escrevo, percebo já serem 00:10 h (considerem aí o fuso-horário do blogspot) do dia 10 de dezembro de 2006, portanto o dia seguinte ao fato. E, por mais eu tente mergulhar na minha intimidade neuronal, buscando, no oceano do inconsciente, vestígios da idéia, do sentimento e dos signos materiais que o compunham, só me deparo com o nada e nada mais. Pena não ter tido forças para levantar-me e buscar um papel e uma caneta ou lápis que o pudesse registrar.
Costumo, por outras razões, imaginava eu, dormir com esses utensílios por perto e várias vezes escrevi rascunhos, anotações inacabadas, graças a esse recurso. Porém, dessa vez, fui pego na tarefa sem o devido equipamento e o resultado é esse acidente de trabalho terrível para um aprendiz de escritor medíocre, que é essa maldita invisibilidade encobrindo tudo.
Ou será que criei um bloqueio moral para reverter um possível efeito criptomnésico, evitando um plágio inconsciente?
Ah, CANSEI!

quinta-feira, novembro 30, 2006

Conhece-te a Ti Mesmo

Ando sem condições de escrever tanto. Acho que são as dores constantes em minha escápula esquerda. Tenho percebido que as lesões que trago pelo corpo são de minha alma, que melhora a cada dia, mas que tem suas recaídas. Por isso, tenho enfrentado dificuldades para registrar aqui minhas umbilicais teorias. Minha escápula está bastante inflamada e as radiculopatias (da quinta cervical à primeira torácica) têm me incomodado bastante, ultimamente. Foram diagnosticadas, em função do nexo causal com o trabalho, como Lesões por Esforço Repetitivo (LER) ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados com o Trabalho (DORT), por diversos médicos que já me atenderam. Fruto da falta de ergonomia no ambiente e na realização do meu antigo trabalho.
Mas a ausência de ergonomia maior está dentro de mim mesmo e de todos nós, que nos submetemos, de bom grado, a uma rotina torturante, como a repetir e reforçar a culpa originada no erro do primeiro homem e da primeira mulher. Para quê tanto sofrimento que nos impomos? A troco de quê giramos nessa roda que destitui as tarefas da existência de significado? O problema não é repetir os atos, mas repetir os pensamentos e a subserviência atroz que caracteriza nossas personalidades conformistas. E não estou falando simplesmente dos problemas materialistas dialéticos da luta de classes ou coisa que o valha. Estou falando, outra vez, do nosso misoneísmo, interpretado em cenas vulgares da mais vergonhosa canastrice existencial.
Estou falando de nossa astúcia na busca do mais fácil, do mais cômodo, do menor esforço. Acumulamos um repertório de fugas da realidade e de máscaras que só nos atrasam a evolução e o entendimento profundo da vida. E preferimos uma rotina acéfala, que nos protege da necessidade de pensar, sentir e modificar-se; modificar-se e crescer, progredindo. O problema é que essa astúcia sempre se volta contra nós.
Os deuses punitivos que jazem em nosso íntimo, então, nos impulsionam a carregar pedras como a expurgar a culpa que dilacera nossas tessituras íntimas. E, reiteradas vezes, empurramos os mesmos calhaus, montanha acima, sem perceber que seria muito bom subir o aclive observando a paisagem, a vida estuante nos olhos das pessoas, no alvoroço dos bichos, no colorido mítico das plantas, nas estrelas ardentes do Infinito.
Seria lindo, ao final do dia, poder olhar para baixo, descansados, e vislumbrarmos a estrada tortuosa trilhada, a paisagem longínqua, as peripécias dos arraiais humanos e sentir satisfação não apenas por ter subido o morro, depositado a rocha e obtido a aparente vitória, mas em estar vivo, simplesmente. E se saber vivo e relevante. E ter vontade de descer de novo e trazer conosco, dessa vez, todos os que estão lá embaixo. O bom trabalho seria assim, por mais repetitivo fosse descer e subir montanhas, largando as pedras e amontoando amigos, na eterna construção de nós mesmos.
Assim seríamos, cada vez mais.

sábado, outubro 28, 2006

Autismo

Ela me disse: “Aprendi a amar incondicionalmente, graças à presença dela em minha vida... Você tem idéia do que é amar uma pessoa que não nos olha? Ela nunca me olhou nos olhos...”. Foi o que a mãe me respondeu, ao ser indagada sobre o que havia aprendido com a filha autista de dezenove anos. Emocionou-me, confesso. Chorei.
Tenho pensado e divagado muito sobre o autismo, entre outras manifestações das “pessoas especiais”, mesmo antes desse diálogo com a mãe educadora, quatorze anos de experiência em Educação Especial. Agora, estou pensando ainda mais. Não tenho mais certeza sobre o autismo ser uma exclusividade de poucos. Ao ler sobre eles, senti-me autista numa sociedade de autistas.
Os autistas são ensimesmados, nós também. Utilizam as outras pessoas como instrumentos para pegar objetos, nós, para satisfazer nossos desejos. Eles resistem às mudanças de rotina; agem como se surdos fossem, para não atender aos chamados; resistem ao aprendizado; apresentam apego a determinados objetos etc. Só eles?

Deixo aqui, por enquanto, essas minhas divagações. Voltarei ao assunto depois.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Misoneísmo

Tudo morre.

Estou morrendo. Aos poucos, a persona se desprende de meu rosto, agora seminu. Tentei repô-la, mas ela não quer ficar mais. Abandona-me, lenta e dignamente. O que parecia ser verdade absoluta escorre entre meus dedos surpresos, diante do inexorável fato dessa morte anunciada. Não percebera antes. Estava cego e fatigado. Acostumado ao clima de meus ácidos humores. Aos meus gestos muitas vezes bruscos. Às chispas de fogo em meus olhos rubros.
Aos poucos, o palco vai ficando vazio, deixando na platéia impressão nenhuma. Ninguém tem visto o caminhar silencioso da persona em direção aos bastidores. Ninguém a viu em visitação mais constante aos camarins ou percebeu a não-freqüência de suas cenas. Nenhum ouvido registrou o seu silenciar ininterrupto, o interromper incessante de sua voz. O misoneísmo do público só vê e ouve o que quer. Porém, tudo morre. E toda morte começa na intenção.
Em algum dia, decidi morrer, só não sei quando. Em algum dia, arbitrei não ser misoneísta e decretei minha fatal sentença. Fui assimilando idéias novas, aspirando ares leves, avançando para além do abismo e, em contínuo movimento autopoiético, engendrei este ser aqui dentro em gestação. E ele, tal qual a máscara que se evade, discreta, irrompe, com silenciosa eloqüência, rasgando o meu silêncio ao mais nobre sentimento: o AMOR.
Ainda cauteloso, começo a amar e amar muito, cada ente, inteligente e nem tanto. Cada coisa que olho, reverente. Cada partícula que invade o meu sensório. Cada nota que tange a minha alma. Cada sussurro da Natureza em minha pele. Cada palavra, cada gesto, cada dor.
Agora entendo: o misoneísmo é uma porta, o Amor, sua chave. Do outro lado e aqui, Deus...

...Na intimidade de todas as coisas.

Tudo vive.

sábado, setembro 09, 2006

Liberdade de Expressão

"O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter." (Cláudio Abramo, 1923-1987)

A mordaça imposta pelo Senador José Sarney à jornalista Alcinéa Cavalcante, retirando seu blog do ar, via TSE, a quem suplicou e teve acesso imediato, como todo humilde componente deste imparcialíssimo País, é muito justa e oportuna. Afinal de contas, como poderia brigar com uma poderosa magnata das comunicações, sendo ele um simples cidadão compromissado com as necessidades do seu povo, a ponto de adotar a vida nômade, mudando seu domicílio político do Maranhão para o Amapá, apenas para beneficiar a população local? Será que essa senhora é destituída de juízo? Ou seu coração está referto de ódio gratuito? Tal afronta imposta a um dos mais célebres dignitários da nação, e a quem esta deve muito, é simplesmente aviltante! Como disse o Senador, os blogueiros são uma raça de marginais que formam uma rede difamatória na Internet e, presumo eu em seu lugar, com isso, só prejudicam o desenvolvimento da democracia. Concordo plenamente com o Senador. Os blogueiros escondem-se atrás de seus PC's de última geração, sentados em suas luxuosas poltronas, arquitetando ofensivas infundadas aos lídimos políticos brasileiros, dignos da mais supina gratidão nacional. Escondidos atrás de suas penas, quer dizer, seus teclados, mobilizam um sem-número de asseclas de colarinho-branco, silenciosos e virtuais, que lançam uma tempestade de bits nos olhos dos incautos (e)leitores que, ingênuos, apesar de muito cultos (de acordo com os nossos belos índices educacionais), se deixam ludibriar por suas mentiras e se esquecem de todos os grandes benefícios da véspera, lançando dejetos e infâmia nos rostos e currículos de homens e mulheres impolutos. A sorte é que, a bem da "Ordem" e do "Progresso", possuímos organismos mantenedores da cultura e do saber que defendem os valores nacionais e os princípios pétreos da democracia, exaltando essas colunas inquebrantáveis da moral e dos bons costumes, que são os políticos e intelectuais como o Senador Sarney - este sim um verdadeiro escritor, porque, afinal, não se camufla atrás de um blog, esta instituição reacionária e covarde. Daí aproveitarmos para dizer a essa senhora que NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM, ela fará parte do panteão da Academia Brasileira de Letras, cujo nobre fardão é envergado por esse grande promotor da Verdade e da Justiça!
Vida longa ao Senador José Sarney! Vida longa à liberdade de expressão!
...
PS: Aqui está o blog novo de Alcinéa Cavalcante, que será devidamente linkado aqui, nestas Teorias: http://alcineacavalcante.blogspot.com/.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Vinil por sobre a Consciência


Não há coisa mais triste que folhas em branco. Prefiro chorar as palavras sobre elas às deixar indeléveis, imaculadas como uma virgem que ignora as peripécias da vida e vive como vivem as pedras imersas e a poeira intocada dos sótãos. Entretanto, estou envolto num filme maldito e impermeável, que não me permite expressar o que quero, não me consente voar.
Esse plástico me tampa as asas, os poros e o nariz - e respirar tem-me sido difícil. Arfante e lasso, atravesso os dias como um Sízifo a empurrar a pedra a que se reduziu o significado da própria existência. Dói.
Olho para as mesmas lousas, as mesmas telas, as mesmas folhas de papel, há dias, e nada. Há dias, contemplo os mesmos sentimentos, as mesmas dores, as mesmas comoções e só faço isso, contemplá-los. A pressão interna é maior do que posso suportar. Essa mordaça vai me matar, não tenho dúvida, se não me dispuser a reagir logo. Preciso me livrar dela, antes que ela livre a Terra de mim. Ou me expresso, ou sufoco-me.
O passado me desce às costas, furioso. Lanceta-me impiedosamente as escápulas, tritura-me aos poucos os ossos do pescoço, estrangula, lentamente, a minha medula. E o vinil não me deixa respirar... Não me permite falar...
Escrever é tentar o furo primaz que, torço, esgarçará o macabro embrulho por completo. Não o quero assimilar. Não quero que ele me assimile. Não quero. Ele não faz parte de mim. Ele não pode me reter.

Decidi: Rasgo essa crisálida e salto – nem que seja o último, e cego, vôo que empreenda.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Consciência

"Fiat Lux" - o despertador alarmou pela primeira vez e o Big Bang mandou o Universo pelos ares. E pelos ares ele se expandiu, dilatando correntes, pêndulos e engrenagens, numa dança em que o Tempo e o Espaço deslizam pelo enorme salão numa coreografia harmoniosa de dançarinos clássicos, ou pisam-se mutuamente os pés, quais parceiros trôpegos a lembrar gêmeos siameses recém-separados. Tudo a depender de quem olha. Com olhar sóbrio, tudo é harmonia. Com os olhos embaçados ou etílicos, tudo é inarmonia e desordem.
É assim, no Universo e no Microverso de cada um. Tudo está em tudo. E o que sofro em mim, sofro fora, impregnando meu senso de existência, minha participação no ambiente e ele próprio. Sou o fiel da balança, o diapasão que harmoniza meu ser/estar no mundo com o mundo que existe em mim.
Hoje, as estrelas são engrenagens choradas pelos céus. Dentro e fora de mim, o Relógio se desmonta, numa sincronia de assombro, admiração e tristeza, mas também estesia. É inevitável. Não posso fugir dos dedos que ajustaram essas cordas, o Relojoeiro me põe onde quer. Dispõe-me sobre o veludo de acordo com as necessidades da Máquina e as minhas - que nem todas sei - e, assim, eu mesmo me ressignifico, ganhando sentido.
Sobre o mesmo pano, o ponteiro que marca a solidão incomoda-me, porque sou solidão entre as peças. Ele pesa nos ombros e nas maçãs do rosto - e cada vez mais em meus olhos úmidos, enquanto meu sangue vai no descompasso que lhes demarca a inimizade, alimentada por uns vôos descuidados do meu beija-flor cordial. Dou-me conta do imenso espaço que separa umas e outras peças desse imenso maquinário. E de como espaço é solidão.
Um átimo de segundo depois, no presente em que agora estou e que está passando, percebo que no espaço há prologamento de mim para os outros. O que está em mim, está no outro, pois, como disse: "Tudo está em tudo". Ressignifico a frase. Ressignifico a vida.
As estrelas são engrenagens que cantam a glória de Deus. Dentro e fora de mim, o Relógio se organiza, numa sincronia de assombro, admiração e plenitude - e também de estesia. É inevitável, o Relojoeiro me põe onde quer que EU queira. E com Ele, disponho as peças no veludo, porque necessito, por mim e para Ele, organizar a Máquina.
Tudo num átimo de segundo depois.
...
E nada mais é solidão.

sexta-feira, julho 07, 2006

Ilhas

Eles decidiram assim. Seriam dois náufragos, em duas ilhas opostas e, entre eles, só sinais de fumaça desenhando seus humores no ar. Sentiam o amor de um pelo outro apenas pelo fumo que pairava no éter, pelas emoções elas mesmas vaporosas, notícias que seus corações aguardavam aos pulos e que a distância, às vezes, distorcia (e este era o único e doloroso senão). Por enquanto, não mergulhariam nas mesmas águas em que os tubarões famintos por suas carnes de menino e menina assustados ainda nadam freneticamente.
Entretanto, quando chove, e a madeira fica molhada, ou o vento arrasta os sentimentos que a fumaça entretém em seu vôo, a saudade fica maior que o oceano. E o oceano fica um imenso vazio.
Ainda hoje estão lá. À noite, acendem a fogueira e esperam um pelo outro, a fim de comentarem as peripécias do dia. À beira cada um de sua praia particular, vêem apenas o bruxulear das chamas e a sombra do amado que jaz na outra margem. Às vezes, o fogo os queima. Às vezes, a fumaça irrita seus olhos e a menina e o menino, confusos, agridem-se, de longe, e se põem a chorar. De tanto chorar, dormem e, ao dormirem, suas almas se elevam a uma mesma ilha, de paisagem calma, em que caminham descalços e de mãos dadas numa praia que nem o Paraíso conseguiu copiar.
Ao amanhecer, voltam, com alguns poucos vestígios do que houve, anotados no diário da memória. E isso os faz voltar à praia toda noite e ascenderem, de novo, aos céus, os seus sinais de fumaça, que faz pulsarem, alegres e inquietos, seus corações de criança, que, juntas, empreendem uma viagem no escuro.
Disseram-me que o Senhor da Vida os viu e comoveu-se. E nomeou um capitão valente para buscar os pequenos. Ordenou que lhes preparasse uma bela ceia e ornasse o salão de festas do navio, porque é lá, ao som da orquestra mais bonita, que eles, enfim, dançarão, olho no olho, face a face. E dirão um para o outro as coisas mais bonitas que seus gestos puderam ensaiar até hoje. Vai ser assim, olho no olho.
Sem fumaça, sem oceano, sem saudade.

quarta-feira, junho 14, 2006

À Deriva


Estou sentado no cais, em frente a um horizonte cinza. Há um ponto luminoso, é bem verdade, mas tênue e distante demais. A procela é densa e não enxergo bem. Nenhum barco vem, nenhum barco vai. Portanto, não há notícias a comunicar os dois pontos.

Sinto, em minhas mãos fechadas e em meu peito arfante, as dores de umas agulhas que caem do céu com a força das flechas saídas dos arqueiros mais selvagens e odiosos que me desejariam atingir. Cada choque é um furo, cada furo, um vazio. Há frio em minhas roupas e botas – e nos meus cabelos encharcados; na febre incessante de meus olhos; nesse inverno imenso que é só meu.

Mesmo assim, permaneço sentado e calmo, a contemplar o que talvez jamais possa atingir. Perscruto o oceano de mim mesmo buscando encontrar a razão que me faz permanecer aqui, parado no porto. Ele nada me responde, por enquanto. Apenas na casca de noz da consciência que sobre ele flutua, o amor se agarra, calejado e em sangue, tentando não naufragar nas incertezas e vacilações dessa distância triste.

De novo, miro o horizonte.

Aqui dentro, a dúvida. Talvez eu pule, talvez eu fique.