sábado, maio 13, 2006

É Guerra!

Um vírus, esse ente ainda mal definido pela Ciência da Vida, saído sabe-se lá de que furna dos Infernos, iludiu meus rastreadores biológicos, instalou-se numa posição estratégica e provocou sérios estragos em minhas primeiras colunas defensivas. Por conseguinte, o Estado-Maior ficou exposto e foi preciso o sacrifício de muitos bravos combatentes para a nação permanecer de pé. E ela não tombou acamada por puro estoicismo. Agora, enquanto saneiam as Forças Armadas o campo de batalha (e como há sujeira, Deus!), tento retornar ao labor de registrar aqui minhas teorias sem graça, que os meus amigos lêem por caridade cristã e para não contrariar o dono do blog, que é um neurastênico beirando às portas da loucura.
Para completar, um imbecil invadiu minha conta no Orkut e começou a propagar vírus através dela, contaminando os computadores de meus incautos amigos, que começaram a reclamar que não conseguiam abrir o arquivo enviado por "mim" ou por "eu" estar lhes enviando vírus. Esse último assunto me irritou, porque houve uma tripla ofensa por parte da criatura, a mim (menos mal), à Língua Portuguesa e às leis biológicas (essas duas últimas imperdoáveis).
Não que eu seja um literato, longe disso. Este texto, por exemplo, deve estar repleto de erros gramaticais que nem consigo detectar. Mas o sujeito que usou meu nome, nunca passou nem perto de uma sala de aula em que se tratasse do assunto. Usou aquelas abreviações de preguiçoso (msg) e escreveu um "pocha", com ch e sem acento circunflexo no "o", que me provocou calafrios - que nem foram de febre. O sujeito também ofendeu a Biologia, ao tentar copiá-la canhestramente.
Os vírus costumam ludibriar o organismo humano, obrigando-o a reproduzi-los e, a depender de sua periculosidade, levando-o até a morte. O ebola agride o sistema circulatório assim. A "fita" de RNA que penetra o núcleo da célula e instala-se no cromossomo é copiada em larga escala, até que rompe o citoplasma e, numa reação em cadeia, todas as células do referido sistema provocam hemorragias internas que, se não me falhe a memória, matam o sujeito em até cinco ou quinze dias, não sei. Mas note-se a interpretação de elemento comum ao corpo que ele realiza. É difícil detectá-lo. Portanto, o vírus é espião bem treinado e mortífero. Já o "outro vírus"...
Eu nunca mando mensagens coletivas, nunca envio correntes ou arquivos de qualquer natureza; não mando girafinhas, elefantinhos, balõezinhos, que tenham por finalidade mostrar "a magia da natureza em ação", fora que nem de longe escrevo daquela forma descuidada, por puro respeito ao único idioma que consigo pelo menos arranhar. Portanto, a cópia foi muito mal feita e não conseguiu reproduzir a astúcia de mecanismos de camuflagem como os dos vírus ou do mimetismo. Mas como nossos sistemas de defesa dependem de nossa maneira de viver, de nosso equilíbrio etc., isso me faz refletir.
Estamos no mundo virtual. Nele nos expressamos muitas vezes de maneira envernizada, superficial. A maioria dos relacionamentos é asséptica, resistente à contaminação mútua, tão importante para as vivências humanas e a educação integral. Não nos enxergamos muito bem no virtual, porque o virtual não sofre a prova da convivência, em cuja qual os humores, odores (agradáveis ou não), maus modos, se manifestam e podem ser desagradáveis. No virtual estamos como no mundo platônico: tudo é ideal. Eu tento ser transparente aqui, expressando-me como faço em qualquer lócus, mas talvez não seja o suficiente. E todos nós estamos com os anticorpos em baixa, porque não conseguimos fazer no mundo corpóreo o que conseguimos no ideal: conviver plenamente.
Vou ao encontro de minha meia-dúzia de três ou quatro amigos, a fim de que eles me conheçam melhor. Vou ser mais transparente a partir de hoje, a fim de não vê-los depois dizer ou escrever, em algum lugar: "Um vírus, esse ente ainda mal definido pela Ciência da Vida, saído sabe-se lá de que furna dos Infernos, iludiu meus rastreadores biológicos..."
PS: Alguém aí sabe me dizer que tipo de notoriedade alguém como esse cabeça-de-bagre, que realiza um feito e não pode torná-lo público, permanecendo incógnito e insignificante no anonimato, busca?

segunda-feira, maio 01, 2006

Uma Pausa Para O Silêncio

Aqueles que cruzarem comigo por esses dias talvez não percebam as goteiras por onde vazam as águas de minha alma agora triste e que embargam a minha voz. Nunca pensei em ficar tão exposto, mas não posso guardar em mim essas torrentes, cujo dique do meu amor-próprio não é capaz de deter.
O mundo é um lugar estranho e as pessoas têm em seus gestos sutis resistências ásperas que magoam ao toque delicado de nossas mãos incautas. Mas é nesse mundo aspérrimo que temos de crescer, é nele que ruminamos nossas angústias, que aprendemos o respeito, que encomendamos nossos caixões, que seguramos as mãos ternas de nossos velhos, que embalamos enternecidos nossas crianças, que pressentimos Deus em cada olhar. Então, de um modo ou de outro, é o melhor lugar pra se viver.
Talvez aqueles que cruzarem comigo por esse dias - e eu próprio - percebam também as frestas de luz que anunciam um amanhã certamente melhor.
(Silencio agora.)
Até a próxima.

terça-feira, abril 25, 2006

O Que Há De Errado Com Meu Coração?

Meu Coração anda descompassado. Parece que vai sair pela boca. Acho que é aquela velha brisa voltando, só que de cara nova. É tão bom que esteja assim...
O problema é que, na intimidade de minha governança, meu Cérebro, um Ministro da Defesa austero e conservador, continua em conflito com ele. Parece que nunca vão chegar a um acordo satisfatório, a um armistício promotor da paz interna.
Enquanto isso, fico entre os portentosos golpes que desferem um no outro e acabo me defendendo, mesmo sem querer. Graças a isso, a dissonância cognitiva róe-me, por dentro, ao parir, em mim, a incerteza. É difícil decidir assim. Vejo, percebo e sinto muitas coisas de um ângulo incerto. Assim, ouso quando deveria recuar, recuo quando deveria ousar e, mesmo agindo, permaneço estático, sem avançar o quanto gostaria. É um acordo difícil de estabelecer, um equilíbrio distante. Não sei quando vou conseguir.
O primeiro, arauto da minha intimidade, quer divulgar decretos novos, mandamentos para um novo governo, suave e arrebatador. Argumenta serem imprescindíveis diretrizes condizentes com um novo tempo de promoção da liberdade para a manifestação plena da delicadeza, a fim de que meu reino se encha de estesia e significado. O segundo, intimida-me com sua coerção ideológica e suas análises críticas sobre meus postos de fronteira, dizendo ser todos frágeis e desprovidos de dados dos imigrantes que pretendem - ao que parece - entrar. Outro dia disse-me: "Toda brisa principia um furacão. É preciso ter cuidado!". Meu Coração, por outro lado, afirma-me: "Todo furacão saneia o ar, tornando-o agradável. É imprescindível se arriscar!"
Eis meu imbróglio diplomático. Meu paradoxo interno. A quem ouvir? Não sei. Ainda não sei. Mas saberei, em breve.
Porém, penso: "O que pode haver de errado com meu Coração e sua agradável proposta?" Preciso de mais conselheiros, gente de minha confiança ao meu lado, nessa hora. Por isso, caro leitor, pergunto-lhe: "O que há de errado com meu Coração?"

domingo, abril 09, 2006

Noturno

Estou ouvindo "Noturno", de Frédéric Chopin. Com ouvidos ignorantes, eu sei. Mas tenho a impressão que Chopin a compôs para mim. Só para mim. Toda vez que a ouço, choro. Às vezes, por fora. Sempre, por dentro.
Algo, que não consigo e nem quero explicar, ressona no fundo de minha alma, trazendo-me uma delicadeza perdida nas areias do tempo, na escuridão das noites, no movimento pendular e inclemente dos relógios. Algo que está perto. Algo que está aqui, dentro de mim. Algo que precisa sair e ir ao encontro da Humanidade inteira.
É mergulhado nos acordes de "Noturno" e entre as lágrimas que brotam tímidas dos meus olhos, delicadas como a minha alma tocada pela alma delicada de Chopin, que escrevo e componho uma sinfonia suave e retumbante, que enche a minha existência de significado e de importância.
Chopin, sinto, atravessa Varsóvia sitiada, as luzes da sua amada Paris, o tempo, a sombra densa das noites, entra em meu quarto íntimo e sussurra suas notas sutis, que confundo com sua voz a me dizer: "É imprescindível que você esteja aqui".
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O Noturno de Chopin referido no texto acima é o de nº 9.

segunda-feira, março 27, 2006

Meus Colegas de Classe

Pessoas entram e saem de nossa vida, o tempo todo. Tudo no seu tempo devido, apesar de nem sempre termos consciência deste fenômeno. Algumas deixam marcas dolorosas, feridas que custam a cicatrizar. Outras nos elevam, auxiliam, fornecem-nos diretrizes importantes para nos conduzirmos. Alguns desses seus atos são voluntários, outros, direcionados pelo processo evolutivo que nos amalgama a todos numa mesma massa crítica, que se aprimora cada vez mais, enquanto se sucedem, nessa imensa sala de aula, as matérias, os mestres, as turmas.
Cada um que chega, entretanto, é compatível com nossas necessidades atuais, com o que precisamos aprender no momento e com a pedagogia melhor ajustada ao nosso caráter de aprendiz mais ou menos receptivo. Assim, afinizamo-nos ou desafinizamo-nos, conforme o processo provoca em nós transformações intelectuais e morais. Uns permanecem, outros vão embora, mas o curso prossegue e as turmas são compostas por alunos cada vez mais comprometidos com objetivos afins.
Têm-me chegado à classe, neste momento, colegas muito interessantes. Com variações peculiares a cada um, são críticos, inteligentes, divertidos, mas, sem exceção, sujeitos que buscam o auto-conhecimento com uma tenacidade espantosa. Querem ser plenos e felizes, ao custo de muito esforço de auto-aperfeiçoamento. Mas esse esforço é exercido com alegria, não me parecendo pesar-lhes, fundamentalmente, nem um pouco. Aproveitando o pensamento de Walter Franco, compositor da época dos festivais, posso dizer que a analogia que melhor lhes cabe é a de instrumentos que se afinam "de dentro pra fora" e "de fora pra dentro". E isso atiça minha curiosidade. Como estou nessa sala de aulas? O que lhes tenho retribuído?
Destes amigos tenho recebido lições diárias importantíssimas. Cada olhar, palavra, aceno, piada ou reflexão, revelam-me dimensões de mim mesmo que antes não percebia. O que lhes ofereço? Não sei. Sei que deles recebo amizade, respeito, carinho, afeto, compassividade e até amor. Porém, isso não faz de mim alguém, por mérito, especial. Faz de mim um felizardo. Um aluno relapso com vários colegas de primeira linha, dignos dos maiores elogios.
Eu estou melhorando, graças à presença deles em minha vida. Vou me esforçar sempre e mais, para merecê-los. Espero mesmo merecê-los. Espero não ficar para trás. Quero-os comigo, o mais que puder.
A todos esses meus colegas de classe, um grande beijo e meu coração eternamente grato.

quarta-feira, março 15, 2006

O Labor Dos Meus Joelhos

Acabei de bater os joelhos no chão, de novo. Dói muito. E ainda vai doer por mais um tempo. Agora, sentado no solo que furiosamente os beijou, vejo as inúmeras cicatrizes que trago em meus joelhos feridos. Muitas histórias, muito sangue derramado.
Quando dizem que as crianças têm cara de joelho, acho injusto. Elas não podem ter cara de joelho, nem de páginas amarelecidas, nem de relógio de bolso, ou qualquer outra coisa que remeta à passagem inexorável do tempo. Não, as crianças não têm cara de joelho, definitivamente.
Eu não sou mais criança. E não sou mais criança porque tenho este livro que são os meus joelhos para ler e me lembrar de todas as vezes que me genufleti, diante de homens e mulheres de grande estatura moral, e de quantas vezes a isso fui forçado pela tirania dos prepotentes. Mesmo assim, leio-os e testifico, com as palavras de um amigo de infância, que hoje volta ao meu convívio: "Tudo é para melhor".
Por isso, erguerei minha fronte aos céus e agradecerei ao Criador da gravidade, que sempre me puxa para baixo toda vez que ameaço tornar-me irremediavelmente arrogante. Ao fazê-lo, sei que Ele me estenderá a mão, far-me-á sentar, tranqüilo, e com um ungüento, que só Ele possui, aplacará as minhas dores.
Depois, ficarei de pé, e continuarei a caminhada.

domingo, março 05, 2006

A Caverna

Eu me habituei a uma caverna escura e vazia.
Passei muito tempo lá, abandonado e só.
Abafaram meus soluços, meus gritos, meu querer,
com uma pedra maldita à porta da caverna. E eu
não podia (ou queria) sair. Habituei-me, então.
Enrijeceram-me os membros, secou-me a boca,
edureceram-me os cabelos e meu hábito era grotesco e sombrio.
Nenhuma mão tocou as minhas mãos. Nenhum beijo afagou a minha face.
Nenhum socorro me chegou de longe ou perto,
e eu pensei mesmo que tudo deveria ser assim.
De repente, a pedra ruiu, e a luz entrou.
Invadiu-me com tanta força, inundou-me os olhos e as entranhas
com tamanho brilho,
que me fez sentir bonito e relevante, como o último pôr-do-sol
e a última florada dos campos. Saí, pois.
Mãos gentis acariciaram-me, muitos lábios me beijaram,
olhos imensos sorriram para mim. Porém,
saíra rápido demais e enlouquecera ao contato exterior.
Meus membros ainda sem tato, minha boca ainda em sequidão
formaram o prenúncio de uma ingratidão estranha que ainda trago no peito cansado.
E percebo
que nenhum perfume ou luz exalou de mim
que iluminasse essas mãos, lábios e existências,
deixando-lhes gostosa saudade.
Às vezes, olho para trás e, ironia das ironias,
chego a sentir vontade de voltar à minha antiga solidão.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ironia

Eu e minha psicóloga - eu já tive uma, por pouco tempo e de graça, mas tive - conversávamos sobre a minha procrastinação, que me atormentava terrivelmente.
- Como se sente? - perguntou-me ela.
- Angustiado. Não consigo fazer nada no prazo correto. Finalizar projetos, chegar em tempo nos compromissos. É horrível isso.
- Na sua opinião, por que se comporta assim?
- Não sei, ao certo. Às vezes, indisciplina. Outras vezes, mania de perfeição.
- Como se sente quando precisa fazer algo a prazo certo?
- Física ou psicologicamente?
- Os dois.
- Fico mentalmente agitado. Sinto o peso do mundo inteiro nas costas. Meus músculos ficam tensos. E, de tão agitado, não faço nada.
- Hum... O que já tentou a respeito?
- Comprei um livro de duas psicólogas norte-americanas sobre o tema.
- Já o leu?
- Todo, não. Dei uma parada e o coloquei na estante.
- Isso não é o fim do mundo. Há quanto tempo foi isso?
- ... Uns dois anos.
- ?????

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Para Uma Boa Memória

Não feche as portas atrás de você.
Não queime as pontes, nem incinere os passaportes -
- Talvez você precise voltar.

Não rasgue as fotografias
Nem queime os mapas,
Não dispense, jamais, os guias.
Rostos amigos, terras de promissão ou conhecidas
São sempre um bom refúgio nos momentos de cansaço.

Não destrua sua bússola,
Não perca o rumo do vento.
Ainda que haja tempestade,
As irrevogáveis leis da Natureza
São sempre um norte seguro,
Na vida de todos nós.

Não cuspa no prato que comeu
Nem desonre o solo que pisar.

É deselegante não sentir gratidão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Divagações

Permito-me divagar sobre o que faz dos blogs um meio de comunicação interessante, na opinião dos blogueiros. Alguns chegam a tê-los como meio de tratamento de suas angústias, anseios mal controlados, melancolias etc. Mesmo leigo no assunto, considero a livre associação de idéias e o respectivo registro delas que eles, os blogs, permitem, uma maneira de perceber os caminhos que as informações do entorno tomaram, rumo à vala do esquecimento ou das dissimulações, ao serem percebidas pelo ser cognoscente. Sobretudo quando, depois de algum tempo, o sujeito, por intermédio da releitura de algum post seu - ou mesmo de outrem -, rememora sentimentos e sensações que lhe eram vivos quando registrou aqueles escritos em seu sensório pela primeira vez. E é um fenômeno que pode ser enriquecido ainda mais, graças ao compartilhamento de informações entre o blogueiro e seus comentaristas. E os há bons e maus, atentos e desatentos.
Alguns comentários são fruto de um olhar especial do leitor sobre o que foi escrito e demonstram que ele observou detalhes muitas vezes só revelados pelo metadiscurso, pelas entrelinhas do texto. Neste caso, verifica-se um fenômeno de empatia que amalgama leitor e escritor (sem querer com isso macular tão sagrada palavra) numa mesma psicosfera de curiosidade reverente, contribuição/retribuição, interesse e aprendizado. Mesmo nos casos dos textos humorísticos, com os quais implicam os amargos de sempre.
É instigante o encontro de pessoas e mentes diferentes através de textos que falam da intimidade velada ou escancarada de cada um, e, ao mesmo tempo, tão acessíveis. Este processo de comunicação possibilita, de alguma forma, a evolução dos indivíduos, conforme suas ações e reações diante do instrumento em questão, porque propiciam a evolução de suas idéias, por meio do debate ou mesmo da mera conversa movida por algum tipo de afetividade. Porém, há muito desperdício de espaço nos comentários desses diários eletrônicos.
Há muitos blogueiros-celebridades. Defino melhor: o blogueiro-celebridade (uma versão deles são alguns donos de fotologs) é o que entende essa mídia como um grande e mais liberal ainda Big Brother e querem aparecer a qualquer custo. Deixam comentários (ou seriam petições desesperadas?) nos blogs alheios apenas para que os outros comentem nos seus e assim aumentem o seu ibope. Mas, como todo programa cuja meta é simplesmente a quantidade, sua qualidade é discutível, infelizmente. No entanto, as pessoas gostam, o que se há de fazer?
Adaptando o pensamento de René Descartes sobre o bom senso, pode-se dizer que o mau-gosto também é a coisa mais bem repartida do mundo. A única diferença é que, ao contrário do bom senso, poucos admitem que o tem.
Por minha vez, continuo fiel aos meus princípios e lendo só aqueles que admiro, por diversas razões, verdadeiramente, procurando com eles aprender, contribuir e retribuir. Portanto, vão meus abraços a: Ao Mirante, Nelson!; Puragoiaba (esses, para mim, são os pais da matéria!); Grimorium; Cadernos Grampeados; Outros Dias; Versos Ofídicos; Mundo do Pop Zen; Blog do Juca; Blog do Tas; Porra, Bicho! e, claro, Pindorama F.C. - esse é meu também, mas eu gosto desse outro cara que escreve lá.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Brisa

Esses dias, eu estava sentado na rotina, sem graça. Ela passou, meio acanhada, não sabia bem o que me dizer e nem como se desculpar pela última vez. (Ainda não entendeu que não me importo com seu jeito suavemente evasivo; às vezes acho até charmoso). Roçou-me o rosto duas vezes, sem jeito, e saiu como se quisesse ficar, mas eu estava, infelizmente, acompanhado, e isso pareceu acanhá-la. Se ela me deixasse dizer como me sinto...

Depois que saiu, senti-me de novo no centro de um relógio mecânico e sem graça, que marca horas que não me interessam e compromissos que não quero mais.

Tomara, em breve, ela volte a soprar o meu rosto e eriçar meus cabelos.

A brisa do amor é assim.

sábado, janeiro 14, 2006

Segundo Boletim Meteorológico

Há poucas horas choveu, finalmente. E foi muito bom. Espero a manhã, com certeza ensolarada.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Boletim Meteorológico

Contrariando a última previsão do tempo, até o momento, não choveu. A cordial região, contudo, não sentiu os impactos do fenômeno, permanecendo com sua economia, apesar da seca, estável. Há uma onda de otimismo com a possibilidade de Sol, à tarde.
Próximo boletim a qualquer momento.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Umidade Relativa do Ar

A tarde está cinzenta e úmida. E eu também um pouco, por dentro. Uma melancolia distante vem visitar-me e acho que senti-la é o melhor a fazer. Tem sido assim nos últimos tempos, prefiro entregar-me à sensação provocada pelas coisas a racionalizá-las, afinal, a razão não me deu boas respostas sobre os sentimentos, quando solicitada. Então, deixo à consciência, esse coração da alma, a tarefa de me dar compreensão sobre o meu entorno.

Não consigo chorar. Há uma lágrima que não quer sair - e não porque eu a repreenda, mas por sua vontade própria -, então espero. Espero pacientemente a torrente que há de me lavar, por dentro e por fora. Estou aberto às emoções, às comoções, às trovoadas e aos relâmpagos, que tanto aprecio. Que a chuva caia conforme os índices pluviométricos. Não vou amaldiçoar a bendita tempestade nem cobrirei os espelhos.
Vou me recolher e vivenciar isso, sem guarda-chuvas ou capas. Depois, passados a enxurrada e eventuais desabamentos, registrarei aqui meu relatório meteorológico.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Póstero Ano Novo

Final de ano. Mais uma vez repete-se a cantilena de sempre: Feliz Natal, Próspero Ano Novo etc. etc.
Não conseguimos vislumbrar a continuidade das coisas. Tratamos o final desse período como se, por mágica, após o dia 31 de dezembro, tudo fosse ser diferente. Mas não será. Não será simplesmente porque a nossa mesmice é por demais contínua.
Não desconsidero a importância das confraternizações de final de ano, nem desmereço alguns esforços sinceros de mudanças, embora poucos. Entretanto, não consigo ver como poderemos sair do círculo vicioso de nosso estar-no-mundo sem mantermos a cabeça no agora.
Refiro-me à consciência, não ao imediatismo, este, sim, pai dileto de nossa amada (amarga, também, muitas vezes) e desagregadora rotina.
Sinto uma necessidade cada vez maior de tentar manter-me consciente de tudo que se passa comigo e à minha volta. E não estou falando de uma conscientização político-partidária, ou qualquer coisa que o valha. Falo da procura do ser por si mesmo, da educação das emoções, da razão, ou, em melhor termo, da inteligência em seu sentido pleno e multivariadas manifestações.
Não há qualquer pretensão de minha parte em pontificar uma verdade incontestável com essas afirmações. Apenas desejo escrever sobre isso como forma de manter o referido exercício de auto-conscientização. E convidar outros a fazerem o mesmo, caso considerem interessante fazê-lo.
Por isso, vou tentar ver as coisas em termos de continuidade. Somente.
Por isso, não vou desejar a todos um Próspero Ano Novo, mas um Póstero Ano Novo.
Posterior como um capítulo de livro que sucede a outro e forma a obra toda. E em que o escritor/editor/leitor, coloca o melhor de seu sangue, suor, inteligência e sentimentos em cada livro, cada tomo, cada capítulo, cada período, cada frase, cada palavra, cada letra...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Deixe o Tempo

Deixe o tempo pensar as feridas,
secar as lágrimas, consolar os tristes,
soerguer os caídos.
Deixe o tempo confundir os orgulhosos,
baguncear os prognósticos, iludir os relógios,
surpreender os projetos.
Deixe o tempo abraçar o espaço,
envelhecer os que já velhos nasceram,
renovar os que se renovam a cada dia,
penetrar a estupidez profunda,
gestar, em si, a sabedoria.
Deixe o tempo beijar as rugas,
acariciar os doridos calos,
embalar os filósofos e encantar os poetas,
ninar na alvorada as crianças
e despertar, à noite, os homens para a guerra.
Deixe o tempo carcomer as estátuas dos mártires,
embolorar os livros profanos - e os que a si se chamam sagrados -,
alvejar os cabelos paternos e acirrar a rebeldia dos filhos.
Calcificar as idéias mortas, soterrar os planos abortados,
necrosar os tecidos sociais da moral de circunstância
e estabelecer a Ética futura.

sábado, dezembro 17, 2005

Corrigenda

O post abaixo deveria ter sido postado no http://pindoramafc.blogspot.com. Falha nossa.

O Homem-Invisível

Alívio! Foi essa a exata sensação. Falcão fez o corta-luz com Toninho Cerezo, que atraiu a marcação italiana, driblou para o meio, vindo da direita, e meteu um balaço que, por sorte do goleiro Dino Zoff, não lhe bateu no peito, aniquilando-o, de imediato. A bola entrou como um míssil no gol da Squadra Azzurra, acabando com as esperanças do retranqueiro Enzo Bearzot. Estava reestabelecida a justiça.
A Itália havia passado pela primeira fase de maneira sofrível. Empatara com Peru e Polônia, sem gols, e com Camarões, em um a um. Depois, já na segunda fase, com o carrapato Gentille grudando em Maradona e sugando-lhe todo o sangue e talento, conseguiu bater a Argentina por dois a um (o Brasil ganhara dos portenhos por três a um, gols de Zico, Júnior e Serginho) e, por isso, tínhamos a vantagem do empate. Porém, a Itália resolveu complicar o jogo e contou com um fenômeno estranho que, até o gol do Rei de Roma, houvera se repetido duas vezes.
No primeiro evento, Grazziani correra pelo lado esquerdo do campo e fizera um cruzamento para a área brasileira. Aí aconteceu o impossível pela primeira vez. Não havia ninguém ali, um segundo antes. Ninguém! De repente, Paolo Rossi, número 20 às costas, surge do nada ou de outra dimensão, e cabeceia a bola sozinho, fulminando Waldir Peres. Confesso que fiquei minutos sem entender o que acontecera. Mas o Brasil de Telê Santana respondeu à altura.
Zico, de costas, deu um drible mágico em Gentille (olha o cara de novo!) e emendou um passe para Sócrates que desnorteou Bergomi, Schirea etc. O Doutor invadiu a área e com a tranqüilidade dos mestres, tocou no canto direito, sem chances para o goleiro italiano.
Minutos depois, o imponderável aconteceu outra vez. Até hoje Toninho Cerezzo é injustiçado por isso. O Brasil tocava e o volante do Atlético Mineiro, sem olhar, dada a imensa sincronia da equipe, atravessou a bola para a esquerda. Dizem hoje que ele foi imprudente, que deveria ter olhado antes. Que nada! As imagens provam que só havia brasileiros ali. Contudo, como Noturno do X-Men, Rossi saiu da quarta dimensão, da rachadura no continuum tempo-espaço ou sabe-se lá de que furna do Inferno, interceptou-a, avançou sem ser obstado por um Luizinho paralisado, entrou na área de novo e soltou um torpedo na cara do atônito goleiro do Brasil. Gol da Itália... Como?
Comecei a ficar preocupado. Não entendia muito de futebol, estava aprendendo a gostar desse esporte ali, em minha infância, durante a Copa de 82, mas sabia que a Natureza possuía leis imutáveis. Como explicar, então, que alguém pudesse aparecer e desaparecer daquela forma? Será que as histórias em quadrinhos, com seus super-heróis ou a Literatura e a TV, com o Homem Invisível, falavam de fatos reais?
Ainda bem que, malgrado minhas elucubrações e meu temor de tudo aquilo terminar mal, Falcão houvesse trazido à normalidade as coisas. Foi uma euforia só. Nada poderia mais nos deter. Nossa campanha vinha sendo irretocável. Nenhuma derrota. Matamos a União Soviética (apesar do frangaço engolido por Waldir Peres num chute de longa distância de Bal), com dois gols antológicos de Sócrates e Éder. Pisamos na Escócia (quatro a um) e massacramos a Nova Zelândia (quatro a zero). Depois, arrasamos a Argentina por três a um e, apesar desse Poltergeist, tudo agora voltava ao normal. O Brasil seria campeão, fácil. E, como em 70, dando espetáculo! Eles até iam cobrar um escanteio, mas nada mais poderia ser feito.
Ouvi nessa hora alguns rumores de vozes conservadoras (existem-nas em todo lugar e circunstância e são sempre assim, desencantadoras): "O Telê devia segurar o jogo. O empate basta, não há por quê ir para cima deles!". Odeio retranqueiros! Como ousavam querer impedir aquele time de ser ofensivo? Com que intenção pedir a Zico, Sócrates, Falcão, Cerezzo, Júnior e Cia. recuarem? Para quê? Ainda bem que, dali mais alguns minutos, o jogo acabaria. Os italianos cobraram o escanteio.
A bola viajou para o centro do tumulto e foi rechaçada facilmente pela defesa do Brasil. De fora da área, Antognoni, meio-campista que se contundiria contra a Polônia uma partida depois, ficando fora da decisão da Copa, pegou de primeira, mandando-a para o gol do Brasil. Mas ela ia para fora, sem problemas. Neste exato instante, o fantástico sucedeu mais uma vez.
O pé direito de Paolo Rossi apareceu outra vez. Não ele inteiro, só o pé - o pé! - , e desviou a bola para o fundo das redes do Escrete Canarinho. Foi como uma parada cardíaca.
Júnior, que não tinha a habilidade de ver o que não podia ser visto, manteve-se na linha da meta defendida por Waldir, e deixou o pé direito de Rossi em condições legais para marcar o terceiro gol dos italianos, o da classificação.
Eu nunca soubera anteriormente como era ter um ente querido morto. Aprendi ali. Aquele gol de Paolo Rossi me marcou como uma tragédia grega. Não sei quanto tempo vislumbrei o futebol como algo assinalado pela melancolia e a dor. Acho que senti o que sentiram os húngaros em 54 ou os holandeses em 74. Injustiça! Fiquei ali, olhando para o televisor, como se tudo estivesse cinza, como se a programação estivesse fora do ar...
Por trás da tela cinérea, em algum lugar e momento impreciso, Rossi ria-se muito.
De mim, do Brasil, de todos.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Da Série Grandes Pensadores - Parte 1

Renato "Didi Mocó" Aragão resumindo todas as elucubrações humanas acerca da consciência e sua relação com o contínuo tempo-espaço einsteniano (indubitavelmente, à luz da filosofia de Henri Bergson): "Onde quer que você esteja, você sempre estará lá".

domingo, dezembro 11, 2005

Fiat Lux

Hoje, permiti que o Sol viesse ferir meus olhos, logo ao acordar e sair da caverna. Expus-me aos poucos, com cuidado, a fim de não me permitir, ignorante que sou, cegar por sua beleza incomensurável e ofuscante.
Enchi os pulmões de ar, tateei a realidade em volta - as ásperas quanto as lisas - , sentindo-me mais vivo, mais feliz.
Estiquei os ossos, pisei descalço o solo pedregoso e sorri, satisfeito, para a existência.
Tudo muito simples.
Tudo transcendentemente simples.