quinta-feira, setembro 28, 2006

Misoneísmo

Tudo morre.

Estou morrendo. Aos poucos, a persona se desprende de meu rosto, agora seminu. Tentei repô-la, mas ela não quer ficar mais. Abandona-me, lenta e dignamente. O que parecia ser verdade absoluta escorre entre meus dedos surpresos, diante do inexorável fato dessa morte anunciada. Não percebera antes. Estava cego e fatigado. Acostumado ao clima de meus ácidos humores. Aos meus gestos muitas vezes bruscos. Às chispas de fogo em meus olhos rubros.
Aos poucos, o palco vai ficando vazio, deixando na platéia impressão nenhuma. Ninguém tem visto o caminhar silencioso da persona em direção aos bastidores. Ninguém a viu em visitação mais constante aos camarins ou percebeu a não-freqüência de suas cenas. Nenhum ouvido registrou o seu silenciar ininterrupto, o interromper incessante de sua voz. O misoneísmo do público só vê e ouve o que quer. Porém, tudo morre. E toda morte começa na intenção.
Em algum dia, decidi morrer, só não sei quando. Em algum dia, arbitrei não ser misoneísta e decretei minha fatal sentença. Fui assimilando idéias novas, aspirando ares leves, avançando para além do abismo e, em contínuo movimento autopoiético, engendrei este ser aqui dentro em gestação. E ele, tal qual a máscara que se evade, discreta, irrompe, com silenciosa eloqüência, rasgando o meu silêncio ao mais nobre sentimento: o AMOR.
Ainda cauteloso, começo a amar e amar muito, cada ente, inteligente e nem tanto. Cada coisa que olho, reverente. Cada partícula que invade o meu sensório. Cada nota que tange a minha alma. Cada sussurro da Natureza em minha pele. Cada palavra, cada gesto, cada dor.
Agora entendo: o misoneísmo é uma porta, o Amor, sua chave. Do outro lado e aqui, Deus...

...Na intimidade de todas as coisas.

Tudo vive.

sábado, setembro 09, 2006

Liberdade de Expressão

"O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter." (Cláudio Abramo, 1923-1987)

A mordaça imposta pelo Senador José Sarney à jornalista Alcinéa Cavalcante, retirando seu blog do ar, via TSE, a quem suplicou e teve acesso imediato, como todo humilde componente deste imparcialíssimo País, é muito justa e oportuna. Afinal de contas, como poderia brigar com uma poderosa magnata das comunicações, sendo ele um simples cidadão compromissado com as necessidades do seu povo, a ponto de adotar a vida nômade, mudando seu domicílio político do Maranhão para o Amapá, apenas para beneficiar a população local? Será que essa senhora é destituída de juízo? Ou seu coração está referto de ódio gratuito? Tal afronta imposta a um dos mais célebres dignitários da nação, e a quem esta deve muito, é simplesmente aviltante! Como disse o Senador, os blogueiros são uma raça de marginais que formam uma rede difamatória na Internet e, presumo eu em seu lugar, com isso, só prejudicam o desenvolvimento da democracia. Concordo plenamente com o Senador. Os blogueiros escondem-se atrás de seus PC's de última geração, sentados em suas luxuosas poltronas, arquitetando ofensivas infundadas aos lídimos políticos brasileiros, dignos da mais supina gratidão nacional. Escondidos atrás de suas penas, quer dizer, seus teclados, mobilizam um sem-número de asseclas de colarinho-branco, silenciosos e virtuais, que lançam uma tempestade de bits nos olhos dos incautos (e)leitores que, ingênuos, apesar de muito cultos (de acordo com os nossos belos índices educacionais), se deixam ludibriar por suas mentiras e se esquecem de todos os grandes benefícios da véspera, lançando dejetos e infâmia nos rostos e currículos de homens e mulheres impolutos. A sorte é que, a bem da "Ordem" e do "Progresso", possuímos organismos mantenedores da cultura e do saber que defendem os valores nacionais e os princípios pétreos da democracia, exaltando essas colunas inquebrantáveis da moral e dos bons costumes, que são os políticos e intelectuais como o Senador Sarney - este sim um verdadeiro escritor, porque, afinal, não se camufla atrás de um blog, esta instituição reacionária e covarde. Daí aproveitarmos para dizer a essa senhora que NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM, ela fará parte do panteão da Academia Brasileira de Letras, cujo nobre fardão é envergado por esse grande promotor da Verdade e da Justiça!
Vida longa ao Senador José Sarney! Vida longa à liberdade de expressão!
...
PS: Aqui está o blog novo de Alcinéa Cavalcante, que será devidamente linkado aqui, nestas Teorias: http://alcineacavalcante.blogspot.com/.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Vinil por sobre a Consciência


Não há coisa mais triste que folhas em branco. Prefiro chorar as palavras sobre elas às deixar indeléveis, imaculadas como uma virgem que ignora as peripécias da vida e vive como vivem as pedras imersas e a poeira intocada dos sótãos. Entretanto, estou envolto num filme maldito e impermeável, que não me permite expressar o que quero, não me consente voar.
Esse plástico me tampa as asas, os poros e o nariz - e respirar tem-me sido difícil. Arfante e lasso, atravesso os dias como um Sízifo a empurrar a pedra a que se reduziu o significado da própria existência. Dói.
Olho para as mesmas lousas, as mesmas telas, as mesmas folhas de papel, há dias, e nada. Há dias, contemplo os mesmos sentimentos, as mesmas dores, as mesmas comoções e só faço isso, contemplá-los. A pressão interna é maior do que posso suportar. Essa mordaça vai me matar, não tenho dúvida, se não me dispuser a reagir logo. Preciso me livrar dela, antes que ela livre a Terra de mim. Ou me expresso, ou sufoco-me.
O passado me desce às costas, furioso. Lanceta-me impiedosamente as escápulas, tritura-me aos poucos os ossos do pescoço, estrangula, lentamente, a minha medula. E o vinil não me deixa respirar... Não me permite falar...
Escrever é tentar o furo primaz que, torço, esgarçará o macabro embrulho por completo. Não o quero assimilar. Não quero que ele me assimile. Não quero. Ele não faz parte de mim. Ele não pode me reter.

Decidi: Rasgo essa crisálida e salto – nem que seja o último, e cego, vôo que empreenda.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Consciência

"Fiat Lux" - o despertador alarmou pela primeira vez e o Big Bang mandou o Universo pelos ares. E pelos ares ele se expandiu, dilatando correntes, pêndulos e engrenagens, numa dança em que o Tempo e o Espaço deslizam pelo enorme salão numa coreografia harmoniosa de dançarinos clássicos, ou pisam-se mutuamente os pés, quais parceiros trôpegos a lembrar gêmeos siameses recém-separados. Tudo a depender de quem olha. Com olhar sóbrio, tudo é harmonia. Com os olhos embaçados ou etílicos, tudo é inarmonia e desordem.
É assim, no Universo e no Microverso de cada um. Tudo está em tudo. E o que sofro em mim, sofro fora, impregnando meu senso de existência, minha participação no ambiente e ele próprio. Sou o fiel da balança, o diapasão que harmoniza meu ser/estar no mundo com o mundo que existe em mim.
Hoje, as estrelas são engrenagens choradas pelos céus. Dentro e fora de mim, o Relógio se desmonta, numa sincronia de assombro, admiração e tristeza, mas também estesia. É inevitável. Não posso fugir dos dedos que ajustaram essas cordas, o Relojoeiro me põe onde quer. Dispõe-me sobre o veludo de acordo com as necessidades da Máquina e as minhas - que nem todas sei - e, assim, eu mesmo me ressignifico, ganhando sentido.
Sobre o mesmo pano, o ponteiro que marca a solidão incomoda-me, porque sou solidão entre as peças. Ele pesa nos ombros e nas maçãs do rosto - e cada vez mais em meus olhos úmidos, enquanto meu sangue vai no descompasso que lhes demarca a inimizade, alimentada por uns vôos descuidados do meu beija-flor cordial. Dou-me conta do imenso espaço que separa umas e outras peças desse imenso maquinário. E de como espaço é solidão.
Um átimo de segundo depois, no presente em que agora estou e que está passando, percebo que no espaço há prologamento de mim para os outros. O que está em mim, está no outro, pois, como disse: "Tudo está em tudo". Ressignifico a frase. Ressignifico a vida.
As estrelas são engrenagens que cantam a glória de Deus. Dentro e fora de mim, o Relógio se organiza, numa sincronia de assombro, admiração e plenitude - e também de estesia. É inevitável, o Relojoeiro me põe onde quer que EU queira. E com Ele, disponho as peças no veludo, porque necessito, por mim e para Ele, organizar a Máquina.
Tudo num átimo de segundo depois.
...
E nada mais é solidão.

sexta-feira, julho 07, 2006

Ilhas

Eles decidiram assim. Seriam dois náufragos, em duas ilhas opostas e, entre eles, só sinais de fumaça desenhando seus humores no ar. Sentiam o amor de um pelo outro apenas pelo fumo que pairava no éter, pelas emoções elas mesmas vaporosas, notícias que seus corações aguardavam aos pulos e que a distância, às vezes, distorcia (e este era o único e doloroso senão). Por enquanto, não mergulhariam nas mesmas águas em que os tubarões famintos por suas carnes de menino e menina assustados ainda nadam freneticamente.
Entretanto, quando chove, e a madeira fica molhada, ou o vento arrasta os sentimentos que a fumaça entretém em seu vôo, a saudade fica maior que o oceano. E o oceano fica um imenso vazio.
Ainda hoje estão lá. À noite, acendem a fogueira e esperam um pelo outro, a fim de comentarem as peripécias do dia. À beira cada um de sua praia particular, vêem apenas o bruxulear das chamas e a sombra do amado que jaz na outra margem. Às vezes, o fogo os queima. Às vezes, a fumaça irrita seus olhos e a menina e o menino, confusos, agridem-se, de longe, e se põem a chorar. De tanto chorar, dormem e, ao dormirem, suas almas se elevam a uma mesma ilha, de paisagem calma, em que caminham descalços e de mãos dadas numa praia que nem o Paraíso conseguiu copiar.
Ao amanhecer, voltam, com alguns poucos vestígios do que houve, anotados no diário da memória. E isso os faz voltar à praia toda noite e ascenderem, de novo, aos céus, os seus sinais de fumaça, que faz pulsarem, alegres e inquietos, seus corações de criança, que, juntas, empreendem uma viagem no escuro.
Disseram-me que o Senhor da Vida os viu e comoveu-se. E nomeou um capitão valente para buscar os pequenos. Ordenou que lhes preparasse uma bela ceia e ornasse o salão de festas do navio, porque é lá, ao som da orquestra mais bonita, que eles, enfim, dançarão, olho no olho, face a face. E dirão um para o outro as coisas mais bonitas que seus gestos puderam ensaiar até hoje. Vai ser assim, olho no olho.
Sem fumaça, sem oceano, sem saudade.

quarta-feira, junho 14, 2006

À Deriva


Estou sentado no cais, em frente a um horizonte cinza. Há um ponto luminoso, é bem verdade, mas tênue e distante demais. A procela é densa e não enxergo bem. Nenhum barco vem, nenhum barco vai. Portanto, não há notícias a comunicar os dois pontos.

Sinto, em minhas mãos fechadas e em meu peito arfante, as dores de umas agulhas que caem do céu com a força das flechas saídas dos arqueiros mais selvagens e odiosos que me desejariam atingir. Cada choque é um furo, cada furo, um vazio. Há frio em minhas roupas e botas – e nos meus cabelos encharcados; na febre incessante de meus olhos; nesse inverno imenso que é só meu.

Mesmo assim, permaneço sentado e calmo, a contemplar o que talvez jamais possa atingir. Perscruto o oceano de mim mesmo buscando encontrar a razão que me faz permanecer aqui, parado no porto. Ele nada me responde, por enquanto. Apenas na casca de noz da consciência que sobre ele flutua, o amor se agarra, calejado e em sangue, tentando não naufragar nas incertezas e vacilações dessa distância triste.

De novo, miro o horizonte.

Aqui dentro, a dúvida. Talvez eu pule, talvez eu fique.


sábado, maio 13, 2006

É Guerra!

Um vírus, esse ente ainda mal definido pela Ciência da Vida, saído sabe-se lá de que furna dos Infernos, iludiu meus rastreadores biológicos, instalou-se numa posição estratégica e provocou sérios estragos em minhas primeiras colunas defensivas. Por conseguinte, o Estado-Maior ficou exposto e foi preciso o sacrifício de muitos bravos combatentes para a nação permanecer de pé. E ela não tombou acamada por puro estoicismo. Agora, enquanto saneiam as Forças Armadas o campo de batalha (e como há sujeira, Deus!), tento retornar ao labor de registrar aqui minhas teorias sem graça, que os meus amigos lêem por caridade cristã e para não contrariar o dono do blog, que é um neurastênico beirando às portas da loucura.
Para completar, um imbecil invadiu minha conta no Orkut e começou a propagar vírus através dela, contaminando os computadores de meus incautos amigos, que começaram a reclamar que não conseguiam abrir o arquivo enviado por "mim" ou por "eu" estar lhes enviando vírus. Esse último assunto me irritou, porque houve uma tripla ofensa por parte da criatura, a mim (menos mal), à Língua Portuguesa e às leis biológicas (essas duas últimas imperdoáveis).
Não que eu seja um literato, longe disso. Este texto, por exemplo, deve estar repleto de erros gramaticais que nem consigo detectar. Mas o sujeito que usou meu nome, nunca passou nem perto de uma sala de aula em que se tratasse do assunto. Usou aquelas abreviações de preguiçoso (msg) e escreveu um "pocha", com ch e sem acento circunflexo no "o", que me provocou calafrios - que nem foram de febre. O sujeito também ofendeu a Biologia, ao tentar copiá-la canhestramente.
Os vírus costumam ludibriar o organismo humano, obrigando-o a reproduzi-los e, a depender de sua periculosidade, levando-o até a morte. O ebola agride o sistema circulatório assim. A "fita" de RNA que penetra o núcleo da célula e instala-se no cromossomo é copiada em larga escala, até que rompe o citoplasma e, numa reação em cadeia, todas as células do referido sistema provocam hemorragias internas que, se não me falhe a memória, matam o sujeito em até cinco ou quinze dias, não sei. Mas note-se a interpretação de elemento comum ao corpo que ele realiza. É difícil detectá-lo. Portanto, o vírus é espião bem treinado e mortífero. Já o "outro vírus"...
Eu nunca mando mensagens coletivas, nunca envio correntes ou arquivos de qualquer natureza; não mando girafinhas, elefantinhos, balõezinhos, que tenham por finalidade mostrar "a magia da natureza em ação", fora que nem de longe escrevo daquela forma descuidada, por puro respeito ao único idioma que consigo pelo menos arranhar. Portanto, a cópia foi muito mal feita e não conseguiu reproduzir a astúcia de mecanismos de camuflagem como os dos vírus ou do mimetismo. Mas como nossos sistemas de defesa dependem de nossa maneira de viver, de nosso equilíbrio etc., isso me faz refletir.
Estamos no mundo virtual. Nele nos expressamos muitas vezes de maneira envernizada, superficial. A maioria dos relacionamentos é asséptica, resistente à contaminação mútua, tão importante para as vivências humanas e a educação integral. Não nos enxergamos muito bem no virtual, porque o virtual não sofre a prova da convivência, em cuja qual os humores, odores (agradáveis ou não), maus modos, se manifestam e podem ser desagradáveis. No virtual estamos como no mundo platônico: tudo é ideal. Eu tento ser transparente aqui, expressando-me como faço em qualquer lócus, mas talvez não seja o suficiente. E todos nós estamos com os anticorpos em baixa, porque não conseguimos fazer no mundo corpóreo o que conseguimos no ideal: conviver plenamente.
Vou ao encontro de minha meia-dúzia de três ou quatro amigos, a fim de que eles me conheçam melhor. Vou ser mais transparente a partir de hoje, a fim de não vê-los depois dizer ou escrever, em algum lugar: "Um vírus, esse ente ainda mal definido pela Ciência da Vida, saído sabe-se lá de que furna dos Infernos, iludiu meus rastreadores biológicos..."
PS: Alguém aí sabe me dizer que tipo de notoriedade alguém como esse cabeça-de-bagre, que realiza um feito e não pode torná-lo público, permanecendo incógnito e insignificante no anonimato, busca?

segunda-feira, maio 01, 2006

Uma Pausa Para O Silêncio

Aqueles que cruzarem comigo por esses dias talvez não percebam as goteiras por onde vazam as águas de minha alma agora triste e que embargam a minha voz. Nunca pensei em ficar tão exposto, mas não posso guardar em mim essas torrentes, cujo dique do meu amor-próprio não é capaz de deter.
O mundo é um lugar estranho e as pessoas têm em seus gestos sutis resistências ásperas que magoam ao toque delicado de nossas mãos incautas. Mas é nesse mundo aspérrimo que temos de crescer, é nele que ruminamos nossas angústias, que aprendemos o respeito, que encomendamos nossos caixões, que seguramos as mãos ternas de nossos velhos, que embalamos enternecidos nossas crianças, que pressentimos Deus em cada olhar. Então, de um modo ou de outro, é o melhor lugar pra se viver.
Talvez aqueles que cruzarem comigo por esse dias - e eu próprio - percebam também as frestas de luz que anunciam um amanhã certamente melhor.
(Silencio agora.)
Até a próxima.

terça-feira, abril 25, 2006

O Que Há De Errado Com Meu Coração?

Meu Coração anda descompassado. Parece que vai sair pela boca. Acho que é aquela velha brisa voltando, só que de cara nova. É tão bom que esteja assim...
O problema é que, na intimidade de minha governança, meu Cérebro, um Ministro da Defesa austero e conservador, continua em conflito com ele. Parece que nunca vão chegar a um acordo satisfatório, a um armistício promotor da paz interna.
Enquanto isso, fico entre os portentosos golpes que desferem um no outro e acabo me defendendo, mesmo sem querer. Graças a isso, a dissonância cognitiva róe-me, por dentro, ao parir, em mim, a incerteza. É difícil decidir assim. Vejo, percebo e sinto muitas coisas de um ângulo incerto. Assim, ouso quando deveria recuar, recuo quando deveria ousar e, mesmo agindo, permaneço estático, sem avançar o quanto gostaria. É um acordo difícil de estabelecer, um equilíbrio distante. Não sei quando vou conseguir.
O primeiro, arauto da minha intimidade, quer divulgar decretos novos, mandamentos para um novo governo, suave e arrebatador. Argumenta serem imprescindíveis diretrizes condizentes com um novo tempo de promoção da liberdade para a manifestação plena da delicadeza, a fim de que meu reino se encha de estesia e significado. O segundo, intimida-me com sua coerção ideológica e suas análises críticas sobre meus postos de fronteira, dizendo ser todos frágeis e desprovidos de dados dos imigrantes que pretendem - ao que parece - entrar. Outro dia disse-me: "Toda brisa principia um furacão. É preciso ter cuidado!". Meu Coração, por outro lado, afirma-me: "Todo furacão saneia o ar, tornando-o agradável. É imprescindível se arriscar!"
Eis meu imbróglio diplomático. Meu paradoxo interno. A quem ouvir? Não sei. Ainda não sei. Mas saberei, em breve.
Porém, penso: "O que pode haver de errado com meu Coração e sua agradável proposta?" Preciso de mais conselheiros, gente de minha confiança ao meu lado, nessa hora. Por isso, caro leitor, pergunto-lhe: "O que há de errado com meu Coração?"

domingo, abril 09, 2006

Noturno

Estou ouvindo "Noturno", de Frédéric Chopin. Com ouvidos ignorantes, eu sei. Mas tenho a impressão que Chopin a compôs para mim. Só para mim. Toda vez que a ouço, choro. Às vezes, por fora. Sempre, por dentro.
Algo, que não consigo e nem quero explicar, ressona no fundo de minha alma, trazendo-me uma delicadeza perdida nas areias do tempo, na escuridão das noites, no movimento pendular e inclemente dos relógios. Algo que está perto. Algo que está aqui, dentro de mim. Algo que precisa sair e ir ao encontro da Humanidade inteira.
É mergulhado nos acordes de "Noturno" e entre as lágrimas que brotam tímidas dos meus olhos, delicadas como a minha alma tocada pela alma delicada de Chopin, que escrevo e componho uma sinfonia suave e retumbante, que enche a minha existência de significado e de importância.
Chopin, sinto, atravessa Varsóvia sitiada, as luzes da sua amada Paris, o tempo, a sombra densa das noites, entra em meu quarto íntimo e sussurra suas notas sutis, que confundo com sua voz a me dizer: "É imprescindível que você esteja aqui".
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O Noturno de Chopin referido no texto acima é o de nº 9.

segunda-feira, março 27, 2006

Meus Colegas de Classe

Pessoas entram e saem de nossa vida, o tempo todo. Tudo no seu tempo devido, apesar de nem sempre termos consciência deste fenômeno. Algumas deixam marcas dolorosas, feridas que custam a cicatrizar. Outras nos elevam, auxiliam, fornecem-nos diretrizes importantes para nos conduzirmos. Alguns desses seus atos são voluntários, outros, direcionados pelo processo evolutivo que nos amalgama a todos numa mesma massa crítica, que se aprimora cada vez mais, enquanto se sucedem, nessa imensa sala de aula, as matérias, os mestres, as turmas.
Cada um que chega, entretanto, é compatível com nossas necessidades atuais, com o que precisamos aprender no momento e com a pedagogia melhor ajustada ao nosso caráter de aprendiz mais ou menos receptivo. Assim, afinizamo-nos ou desafinizamo-nos, conforme o processo provoca em nós transformações intelectuais e morais. Uns permanecem, outros vão embora, mas o curso prossegue e as turmas são compostas por alunos cada vez mais comprometidos com objetivos afins.
Têm-me chegado à classe, neste momento, colegas muito interessantes. Com variações peculiares a cada um, são críticos, inteligentes, divertidos, mas, sem exceção, sujeitos que buscam o auto-conhecimento com uma tenacidade espantosa. Querem ser plenos e felizes, ao custo de muito esforço de auto-aperfeiçoamento. Mas esse esforço é exercido com alegria, não me parecendo pesar-lhes, fundamentalmente, nem um pouco. Aproveitando o pensamento de Walter Franco, compositor da época dos festivais, posso dizer que a analogia que melhor lhes cabe é a de instrumentos que se afinam "de dentro pra fora" e "de fora pra dentro". E isso atiça minha curiosidade. Como estou nessa sala de aulas? O que lhes tenho retribuído?
Destes amigos tenho recebido lições diárias importantíssimas. Cada olhar, palavra, aceno, piada ou reflexão, revelam-me dimensões de mim mesmo que antes não percebia. O que lhes ofereço? Não sei. Sei que deles recebo amizade, respeito, carinho, afeto, compassividade e até amor. Porém, isso não faz de mim alguém, por mérito, especial. Faz de mim um felizardo. Um aluno relapso com vários colegas de primeira linha, dignos dos maiores elogios.
Eu estou melhorando, graças à presença deles em minha vida. Vou me esforçar sempre e mais, para merecê-los. Espero mesmo merecê-los. Espero não ficar para trás. Quero-os comigo, o mais que puder.
A todos esses meus colegas de classe, um grande beijo e meu coração eternamente grato.

quarta-feira, março 15, 2006

O Labor Dos Meus Joelhos

Acabei de bater os joelhos no chão, de novo. Dói muito. E ainda vai doer por mais um tempo. Agora, sentado no solo que furiosamente os beijou, vejo as inúmeras cicatrizes que trago em meus joelhos feridos. Muitas histórias, muito sangue derramado.
Quando dizem que as crianças têm cara de joelho, acho injusto. Elas não podem ter cara de joelho, nem de páginas amarelecidas, nem de relógio de bolso, ou qualquer outra coisa que remeta à passagem inexorável do tempo. Não, as crianças não têm cara de joelho, definitivamente.
Eu não sou mais criança. E não sou mais criança porque tenho este livro que são os meus joelhos para ler e me lembrar de todas as vezes que me genufleti, diante de homens e mulheres de grande estatura moral, e de quantas vezes a isso fui forçado pela tirania dos prepotentes. Mesmo assim, leio-os e testifico, com as palavras de um amigo de infância, que hoje volta ao meu convívio: "Tudo é para melhor".
Por isso, erguerei minha fronte aos céus e agradecerei ao Criador da gravidade, que sempre me puxa para baixo toda vez que ameaço tornar-me irremediavelmente arrogante. Ao fazê-lo, sei que Ele me estenderá a mão, far-me-á sentar, tranqüilo, e com um ungüento, que só Ele possui, aplacará as minhas dores.
Depois, ficarei de pé, e continuarei a caminhada.

domingo, março 05, 2006

A Caverna

Eu me habituei a uma caverna escura e vazia.
Passei muito tempo lá, abandonado e só.
Abafaram meus soluços, meus gritos, meu querer,
com uma pedra maldita à porta da caverna. E eu
não podia (ou queria) sair. Habituei-me, então.
Enrijeceram-me os membros, secou-me a boca,
edureceram-me os cabelos e meu hábito era grotesco e sombrio.
Nenhuma mão tocou as minhas mãos. Nenhum beijo afagou a minha face.
Nenhum socorro me chegou de longe ou perto,
e eu pensei mesmo que tudo deveria ser assim.
De repente, a pedra ruiu, e a luz entrou.
Invadiu-me com tanta força, inundou-me os olhos e as entranhas
com tamanho brilho,
que me fez sentir bonito e relevante, como o último pôr-do-sol
e a última florada dos campos. Saí, pois.
Mãos gentis acariciaram-me, muitos lábios me beijaram,
olhos imensos sorriram para mim. Porém,
saíra rápido demais e enlouquecera ao contato exterior.
Meus membros ainda sem tato, minha boca ainda em sequidão
formaram o prenúncio de uma ingratidão estranha que ainda trago no peito cansado.
E percebo
que nenhum perfume ou luz exalou de mim
que iluminasse essas mãos, lábios e existências,
deixando-lhes gostosa saudade.
Às vezes, olho para trás e, ironia das ironias,
chego a sentir vontade de voltar à minha antiga solidão.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ironia

Eu e minha psicóloga - eu já tive uma, por pouco tempo e de graça, mas tive - conversávamos sobre a minha procrastinação, que me atormentava terrivelmente.
- Como se sente? - perguntou-me ela.
- Angustiado. Não consigo fazer nada no prazo correto. Finalizar projetos, chegar em tempo nos compromissos. É horrível isso.
- Na sua opinião, por que se comporta assim?
- Não sei, ao certo. Às vezes, indisciplina. Outras vezes, mania de perfeição.
- Como se sente quando precisa fazer algo a prazo certo?
- Física ou psicologicamente?
- Os dois.
- Fico mentalmente agitado. Sinto o peso do mundo inteiro nas costas. Meus músculos ficam tensos. E, de tão agitado, não faço nada.
- Hum... O que já tentou a respeito?
- Comprei um livro de duas psicólogas norte-americanas sobre o tema.
- Já o leu?
- Todo, não. Dei uma parada e o coloquei na estante.
- Isso não é o fim do mundo. Há quanto tempo foi isso?
- ... Uns dois anos.
- ?????

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Para Uma Boa Memória

Não feche as portas atrás de você.
Não queime as pontes, nem incinere os passaportes -
- Talvez você precise voltar.

Não rasgue as fotografias
Nem queime os mapas,
Não dispense, jamais, os guias.
Rostos amigos, terras de promissão ou conhecidas
São sempre um bom refúgio nos momentos de cansaço.

Não destrua sua bússola,
Não perca o rumo do vento.
Ainda que haja tempestade,
As irrevogáveis leis da Natureza
São sempre um norte seguro,
Na vida de todos nós.

Não cuspa no prato que comeu
Nem desonre o solo que pisar.

É deselegante não sentir gratidão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Divagações

Permito-me divagar sobre o que faz dos blogs um meio de comunicação interessante, na opinião dos blogueiros. Alguns chegam a tê-los como meio de tratamento de suas angústias, anseios mal controlados, melancolias etc. Mesmo leigo no assunto, considero a livre associação de idéias e o respectivo registro delas que eles, os blogs, permitem, uma maneira de perceber os caminhos que as informações do entorno tomaram, rumo à vala do esquecimento ou das dissimulações, ao serem percebidas pelo ser cognoscente. Sobretudo quando, depois de algum tempo, o sujeito, por intermédio da releitura de algum post seu - ou mesmo de outrem -, rememora sentimentos e sensações que lhe eram vivos quando registrou aqueles escritos em seu sensório pela primeira vez. E é um fenômeno que pode ser enriquecido ainda mais, graças ao compartilhamento de informações entre o blogueiro e seus comentaristas. E os há bons e maus, atentos e desatentos.
Alguns comentários são fruto de um olhar especial do leitor sobre o que foi escrito e demonstram que ele observou detalhes muitas vezes só revelados pelo metadiscurso, pelas entrelinhas do texto. Neste caso, verifica-se um fenômeno de empatia que amalgama leitor e escritor (sem querer com isso macular tão sagrada palavra) numa mesma psicosfera de curiosidade reverente, contribuição/retribuição, interesse e aprendizado. Mesmo nos casos dos textos humorísticos, com os quais implicam os amargos de sempre.
É instigante o encontro de pessoas e mentes diferentes através de textos que falam da intimidade velada ou escancarada de cada um, e, ao mesmo tempo, tão acessíveis. Este processo de comunicação possibilita, de alguma forma, a evolução dos indivíduos, conforme suas ações e reações diante do instrumento em questão, porque propiciam a evolução de suas idéias, por meio do debate ou mesmo da mera conversa movida por algum tipo de afetividade. Porém, há muito desperdício de espaço nos comentários desses diários eletrônicos.
Há muitos blogueiros-celebridades. Defino melhor: o blogueiro-celebridade (uma versão deles são alguns donos de fotologs) é o que entende essa mídia como um grande e mais liberal ainda Big Brother e querem aparecer a qualquer custo. Deixam comentários (ou seriam petições desesperadas?) nos blogs alheios apenas para que os outros comentem nos seus e assim aumentem o seu ibope. Mas, como todo programa cuja meta é simplesmente a quantidade, sua qualidade é discutível, infelizmente. No entanto, as pessoas gostam, o que se há de fazer?
Adaptando o pensamento de René Descartes sobre o bom senso, pode-se dizer que o mau-gosto também é a coisa mais bem repartida do mundo. A única diferença é que, ao contrário do bom senso, poucos admitem que o tem.
Por minha vez, continuo fiel aos meus princípios e lendo só aqueles que admiro, por diversas razões, verdadeiramente, procurando com eles aprender, contribuir e retribuir. Portanto, vão meus abraços a: Ao Mirante, Nelson!; Puragoiaba (esses, para mim, são os pais da matéria!); Grimorium; Cadernos Grampeados; Outros Dias; Versos Ofídicos; Mundo do Pop Zen; Blog do Juca; Blog do Tas; Porra, Bicho! e, claro, Pindorama F.C. - esse é meu também, mas eu gosto desse outro cara que escreve lá.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Brisa

Esses dias, eu estava sentado na rotina, sem graça. Ela passou, meio acanhada, não sabia bem o que me dizer e nem como se desculpar pela última vez. (Ainda não entendeu que não me importo com seu jeito suavemente evasivo; às vezes acho até charmoso). Roçou-me o rosto duas vezes, sem jeito, e saiu como se quisesse ficar, mas eu estava, infelizmente, acompanhado, e isso pareceu acanhá-la. Se ela me deixasse dizer como me sinto...

Depois que saiu, senti-me de novo no centro de um relógio mecânico e sem graça, que marca horas que não me interessam e compromissos que não quero mais.

Tomara, em breve, ela volte a soprar o meu rosto e eriçar meus cabelos.

A brisa do amor é assim.

sábado, janeiro 14, 2006

Segundo Boletim Meteorológico

Há poucas horas choveu, finalmente. E foi muito bom. Espero a manhã, com certeza ensolarada.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Boletim Meteorológico

Contrariando a última previsão do tempo, até o momento, não choveu. A cordial região, contudo, não sentiu os impactos do fenômeno, permanecendo com sua economia, apesar da seca, estável. Há uma onda de otimismo com a possibilidade de Sol, à tarde.
Próximo boletim a qualquer momento.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Umidade Relativa do Ar

A tarde está cinzenta e úmida. E eu também um pouco, por dentro. Uma melancolia distante vem visitar-me e acho que senti-la é o melhor a fazer. Tem sido assim nos últimos tempos, prefiro entregar-me à sensação provocada pelas coisas a racionalizá-las, afinal, a razão não me deu boas respostas sobre os sentimentos, quando solicitada. Então, deixo à consciência, esse coração da alma, a tarefa de me dar compreensão sobre o meu entorno.

Não consigo chorar. Há uma lágrima que não quer sair - e não porque eu a repreenda, mas por sua vontade própria -, então espero. Espero pacientemente a torrente que há de me lavar, por dentro e por fora. Estou aberto às emoções, às comoções, às trovoadas e aos relâmpagos, que tanto aprecio. Que a chuva caia conforme os índices pluviométricos. Não vou amaldiçoar a bendita tempestade nem cobrirei os espelhos.
Vou me recolher e vivenciar isso, sem guarda-chuvas ou capas. Depois, passados a enxurrada e eventuais desabamentos, registrarei aqui meu relatório meteorológico.